quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

DE QUE CONSTA COSTA?

Foto: TVI

O país anónimo, aquele que se borrifa para o quotidiano político, passa por cima destas questões com aquela leveza das neblinas sopradas por brisas de frescura, nas manhãs de estio.
De repente, quando as nuvens escurecem por alterações na pressão, soam as campainhas de alarme e da indignação, que o país na sarjeta, que o governo lastima que não o entendam, que o mau é muito e que tudo arde em maior ou menor labareda e consumição.
O sintoma é tão mais grave quanto é grave que se perfile no horizonte um governo liderado por Antonio Costa e assente sobre os escombros provadamente incompetentes do PS, sem que ninguém conheça um rascunho de ideia que seja para o país e para os que nele vivem, sem ser às ordens e controle remoto dos donos do dinheiro que não temos.
Diz o vate líder no Largo do Rato que não quer confundir as pessoas nem contribuir para a vozearia e algazarra políticas, cujo resultado é, segundo a sua aparente única certeza, nenhum.
Ora Costa consta, tão só, de uma nulidade a quem o país se prepara para passar um monumental cheque em branco, típico do desespero e do desprezo a que a política é reduzida pelo alheamento dos cidadãos, pelo vómito enjoado da digestão atravessada, da água com gás, das pastilha para a azia, da mão no peito, das palavras de ordem, do rabo sentado na aba do sofá, o não faço e do não aconteço, aos berros, aos murros, aos palavrões e à rotina que castra.
Entre o mau presente e o vislumbre dum castigo, tenha ele as formas que tiver, castigue-se, castigue-se, mesmo que o castigo use uma roupa conhecida, feita de má fibra, de um algodão que não engana, de reles curtimenta, de deficiente cosedura...
Vestiremos até aos buracos que a traça dos dias abrirá, que a falta de competência validará tão (des)incomodamente a cada queixa que se liberte das nossas bocas abertas.
Costa consta disto e do resto que, para não confundir, nem ele sabe.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

GRÉCIA (2)


Tenho acompanhado a evolução da situação na Grécia.
Há muita poluição, misturada com ideologia política em tom serôdio e a grande maioria das análises que tenho lido estão, por isso, inquinadas, seja por deslumbre e excesso, seja por ceticismo e defeito.
Tenho lido sobretudo, euforia em toda a linha, gente em bicos de pés perante a possibilidade de, quem sabe, aparecer uma espécie duo Tsipras - Varoufakis e um Syriza em Portugal, capazes de salvar a pátria apalermada. Olhando para o espectro político nacional, vejo o "Livre" e o que resta do Bloco de Esquerda... O PCP saltou fora do barco, que aquela ortodoxia não se vende por tuta e meia e no PS reina a confusão que se instala quando um navio enfrenta um mar revolto. Tudo decalças nas mãos, uns por medo e outros por emoção.
Mas as análises mais cordatas que tenho lido estão a mostrar que aquela "tesão do mijo" que o Syriza mostrou está a"acalmar" porque o caldo da realidade é demasiado duro e o buraco da sanita parece encolher no fundo da latrina europeia, quando o duo para lá aponta os respetivos pénis e empurra o jato elíptico da urina.
A desgraçada sabedoria dos milénios andados trata de colocar as coisas na sua planura aborrecida. 
Não se fazem canoas sem paus, omeletes sem ovos e, provavelmente, paises sem dinheiro. E a Grécia não o tem. Ponto.
E portanto, não há milagres.
Porque não há santos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

AS COISAS


Apesar de tudo, persistem-me e insistem-me duas vulgares vontades, ainda firmes nos dias que ando:
Ler e ouvir música.
Curiosamente, ou não, são duas atividades que não apelam à companhia, à conversa mole, à vontade de saber e querer saber do que se está a passar.
O meu estado "letárgico", sendo estranho em mim, tem-me trazido mais tranquilidade, quanto mais não seja momentânea, pois que pouco me importuna o cachecol do senhor Varoufakis ou os murros na mesa do outro senhor, o Tsipras, dados na Grécia ou nas secretárias de mogno preto da Comissão Europeia, algo com que muita gente farta desta mole corrente de políticos e executores engravatados e fatiados
     porque enfiados dentro de fatos
nesta altura se vai auto-estimulando em maior ou menor grau, uns desejando que tudo mude mesmo, outros desejando que tudo mude para tudo ficar na mesma, outros juntando as mãos e os dedos numa simetria de espelhos, erguidos aos céus e vaticinando o caos e o apocalipse, engendrados para lá desta ordem em que vivemos num sobressalto manso e localizado quase sempre entre paredes e de rabo no sofá.
Ler - O livro que tenho entre mãos é uma possante "Biblia" de 900 páginas, que de uma forma a roçar o cruel e aqui e ali o sublime, vai desenhando o que é hoje a condição humana, entre o caos e a ordem, a fuga e o comodismo, os valores ou a falta deles com que crescemos, o cada vez maior afastamento face à natureza e de como isso nos embrutece, muito embora
     aparentemente?
nos prepare
     melhor?
para o futuro que se desenha com contornos mais ou menos percetíveis, uma vez que a natureza em estado mais ou menos "puro" ou "conservado", está confinada cada vez mais a pequenos "guettos" que surgem quase como afrontas à modernidade, produtos de pequenas esmolas que a humanidade vai concedendo a si mesma, como se tratasse de obra benemérita, arrancada a ferros ao implacável rumo que nos leva em direção ao
     abismo?
futuro que queremos para o próximo segundo, porque o hoje escalda, o ontem está lá para trás e a aceleração que a vida quotidiana sofre é a mesma que queremos impingir à própria História, olvidando-nos que a aceleração do tempo é a aceleração de nós mesmos.
Música - A (quase) única linguagem que vou suportando, porque a ouço e procuro quando quero, não me é imposta, não me é exigida, não me é cobrada e mantém o seu nível para lá do que se estabeleceu ou alguém estabelece como a norma e a correção.

Nota: Estes textos são idiossincráticos até ao tutano. Não sei se alguém se dá ao trabalho de os ler, pouco me importa se o fazem e ainda menos me importam os rótulos que me vão pondo relativamente a esta exposição tão crua e tão desalinhada.
Mas por eles percebe-se que resistirei a ser mais um bovino ou caprino, disposto a pastar onde me mandam, de palas nos olhos e a seguir, ordeiramente, as "ordens" dadas por pastores reais ou imaginários, cujo objetivo eu desconheço e, seguramente, não é o meu.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O VENTO SOBRE OS CALHAUS

Foto: João Palmela

Saí.
Fui só.
Lá fora tanto vento.
Fui ter com os demais calhaus, na beira-mar onde mais ninguém, nenhum rosto, nenhum corpo, nenhuma voz, apenas os calhaus e eu, fustigados por um tremendo vento e por um mar agitado, soprado pelo mesmo vento de nordeste, seco, sujo, às vezes estúpido porque é um vento de nada, vem aos gritos e nada diz ou revela que não a sua rudeza, o seu som que só é agreste, ofende, abana, levanta pó, transporta securas, um vento esgazeado, sem eira nem beira, que corre teimoso para a frente, sem definição ou objetivo.
Andei sobre os calhaus. 
Vi muitas pedras arredondadas pela teimosia e obstinação do mar, buriladas pela não desistência das ondas que se enrolam e desenrolam sobre si, em busca da perfeição ou apenas na procura da melhor expressão de si mesmas, tentando sem fim ou cansaço que se perceba, escrevendo as mesmas frases como se a mensagem não fosse assimilada por nada nem ninguém. Vi bocados de chão, de casas, de alcatrão, ruinas do tempo que cai aos pedaços, de estradas da Madeira velha, o Calhau-Menor, provavelmente a alma de algumas pessoas que entretanto já não gente e se calhar mais vento do que gente porque aos gritos e ninguém com ouvidos, pedaços seus e da sua vida ali, por entre os calhaus e o seu cinzento redondo, formatado, disforme, conforme o tempo que os fez assim tão monótonos e iguais de condição.
Caminhei só. 
Arrisquei equilibrios, trepei a escarpa, estanquei de cara ao vento, salpicado por espuma bravia de ondas ali quase por baixo dos pés, batendo resolutas contras as rochas, erguendo-se em ousadia para cima destas, revelando-se com a mesma certeza com que depois se reduziam às demais águas, como se a sua vontade se fizesse e desfisesse num desafio sem princípio nem fim, mostrando-se e escondendo-se, subindo e descendo, na exuberância e no acanhamento, a bem dizer a própria existência e a própria condição que nos faz por cá.
Depois voltei para trás.
A escarpa fez terminar a caminhada. 
Fez-se alta. 
Demasiado alta e nela apenas as gaivotas arriscam na sua certeza de asas e voo, enquanto os gritos do vento as empurram torcidas, fora do eixo, cujo voo em luta com a falta de travão da aragem, desenha linhas tortas, quebradas, sem regra e com a direção tropeçada ou mal desenhada por mãos sem afinação, ou sequer propensão.
Por cima dos calhaus, a Madeira nova, o Calhau-Maior onde carros apressados em sentidos inversos, sobre um viaduto que furou a paisagem bruta e rude que nenhum vento domina ou afronta e dentro deles gente. Gente viva, outra provavelmente morta mesmo estando viva e como é Carnaval, alguma gente disfarçada de si mesma, escondida ou escancarada, sempre naquela certeza que apenas cada um sabe e sente, aquela certeza que convence por fora e não convence por dentro, aquela certeza que faz a multidão de calhaus tão igual e tão diferente, tão aos gritos e tão sem dizer nada.
E entretanto, ainda o tanto vento.
Voltei só.
Entrei.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AS IDEIAS


Estou a atravessar um deserto de ideias e de criatividade.
Por isso, há dias, recomecei a escrever.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O RABO DE MADURO


Esta semana cruzei-me com uma conversa de Café, protagonizada por dois casais de emigrantes madeirenses na Venezuela. Sentaram-se e conversaram sobre o país que por dias deixaram do lado de lá do mar. Pelo que percebi, estavam cá em "férias", mas não se desligaram da realizade venezuelana, a que regressarão em breve.
Falavam do total aperto que se vive naquele país e de como tudo  ou quase tudo lá falta, lançando na antecâmara do caos, uma nação que teria (tudo?) para ser uma potência pelo menos regional, contrariando as ondas de salvação que foram vendidas aos eleitores, em nome de uma "revolução" que urgia fazer,contra tudo e contra todos.
Segundo a conversa, depois confirmada nas notícias, tudo falta naquela terra, destacando-se, incrivelmente, o papel higiénico. 
Fazem-se filas para o comprar, durante dias, com senhas e limites sobre limites. Compra-se uma dúzia de rolos, fica-se com uma parte, vende-se a peso de ouro a outra parte, entre dentes e frases abafadas, a um amigo, vizinho ou transeunte. Há sempre alguém disposto a soltar o dinheiro pedido.
Ouvi a conversa e não pude deixar de me interrogar sobre a higiene do rabo do Presidente Nicólas Maduro, algures no presidencial palácio do regime orgulhosamente bolivariano.
Estará ou não limpo - bem limpo - o rabo de Maduro?

sábado, 31 de janeiro de 2015

GRÉCIA


Não tenho nenhuma declaração em modo de mais-valia sobre o que se passa na Grécia.
Não sou encartado em comentarismo, não me auto-estimulo com catarses político-ideológicas e mantenho distância de nojo da palermice generalizada e raramente pensante, seja ela esquerda, direita, central ou orbital.
Não gosto de arranques bombásticos e hordas de gente a bater palmas de júbilo. Desconfio por princípio e com tendência elástica, embora no caso em apreço registe a nota de mudança, que rompe com o "estabelecido" há décadas. Os gregos decidiram. Ponto.
Mas não olvido que as faturas aparecem sempre no fim.
Prefiro esperar para ver e duvidar sempre. É comodismo, mas é o que consigo dar.
Boa tarde e boa sorte para a Grécia!

domingo, 25 de janeiro de 2015

DOS DIAS (NO E FORA) DO CALHAU - 117

Lareira.


Cogumelos.


Fim de tarde na Portela de Oliveira - Penacova. 31 de dezembro de 2014.

Parte da cidade de Coimbra vista da Serra do Roxo - Penacova.

Manhã de dia 21 de janeiro sobre as Desertas - Madeira.
Esboço de um arco íris na tarde de 23 de janeiro.


Regata na manhã de sábado, dia 24 de janeiro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O CIVILIZADO


O meu voluntário jejum televisivo não me afasta, totalmente, das palpitações do mundo. 
Apesar de tudo, procuro menter-me minimamente atento por via do "risco mínimo do ridículo", socialmente recomendado.
Recebo e leio, diariamente, uma newsletter eletrónica do jornal "O Observador", da responsabilidade de José Manuel Fernandes.
Ao que consta, o homem
     em tempos diretor do Jorna Público
é bastante criticado pelo seu (declarado?) posicionamento político, digamos, que dizem as línguas do "lado oposto", é tendencioso, mas em bom rigor isso pouco ou nada me importa ou retira o sono. cada um com as suas tendências, vivendo de bem com elas.
Essa newsletter resume-me o dia noticioso e com ela são-me disponibilizadas uma série de ligações a diversos artigos - nacionais e estrangeiros - que pela sua diverside me mantém nos níveis mínimos do "civilizado".
Ora, hoje fiquei a saber
     sem espanto especial, diga-se
que existe uma troca de mimos e acusações entre dois jornais nacionais (CMe JN) e em que
     igualmente sem espanto
surge o nome de um cidadão preso preventivamente em Évora como de alguma forma envolvido, através de esquemas típicos.
Ora é demasiada matéria para que assobiemos para o ar ou, como alguém um dia disse, olhemos os céus na esperança de choverem fezes 
      há uma versão em vernáculo bem mais gráfica e humorada...
para que que um esgar enojado não nos percorra o espírito. Matéria podre, mal cheirosa, cheia de larvas que furam e se enterram contorcendo-se numa pasta abjeta.
No fim desta história,  o "civilizado" tem limites, claro.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A CERTEZA


Estou há uns 5 dias sem ver televisão.
É uma opção como outra qualquer.
A televisão está lá, onde sempre esteve, de ecrã plano, preta, de marca nipónica, olhos em bico, a piscar seduções mas eu não lhe ligo pêva. Pouco me importa o seu ar provocador, de braço dado com o sofá ali a dois metros.
Por mim ela azedaria lá não fossem os petizes dar-lhe serviço com uns desenhos animados e umas séries infanto-juvenis de piada rés-do-chão e carregadouro oral.
Contudo hoje, na TV de uma sala escolar que frequento, vi quase sem o querer, duas senhoras de idade já adiantada, a sairem pela porta humilde de um estabelecimento prisional alentejano. E alvitravam, do alto dos seus casacos, da sua cabeleira armada de laca, das suas tão invejáveis certezas e antes de se introduzirem em automóveis topo de gama com chauffer, que o preso que tinham ido visitar está absolutamente inocente.
Como se vê, 5 dias sem televisão revelam que ela para pouco serve e que, através dela, percebemos melhor e mais angustiadamente que o mundo é um lugar onde tudo, mas tudo tem lugar.
Desde o mais credível ao mais patético.
Ainda cá vamos cabendo todos.