terça-feira, 15 de Abril de 2014

CRÓNICA AGRADECIDA


Considero-me um individuo bem educado. Os meus pais ensinaram-me, desde o limbo do mau cheiro das fraldas, a agradecer tudo o que fazem por mim, seja lá de que forma for.
Sucede que de há vários meses ando com uma espécie de tupperware cheio de agradecimentos, bem conservadinhos, à espera de poderem saír da proteção e hermetismo da embalagem e serem distribuidos pelos seus putativos donos, numa espécie de catarse de boas práticas e distribuição de miminhos.
Portanto cá vai. Sem temores.
Agradeço ao senhor Engenheiro Sócrates e ao Dr. Passos Coelho (sobretudo) o facto de terem despertado em mim hábitos e capacidades que julguei jamais poder vir a ter e praticar. Nunca fui um tipo de gastar o que não tenho nem de despejar o salário carteira fora ao fim de meia dúzia de dias e portanto o que posso fazer para o provar, é dar a conhecer aos que me lêem uma série de exemplos grátis, em estilo de promoção, pague dois leve três ou mais, sobretudo quando arrisco ir ao supermercado com os filhos que, ao olharem as prateleiras, vão atirando à sorte, a ver se me distraio
     - Pai, porque não levas isto?
e a resposta já está formatada
     - Não pode ser. Isso não é prioritário. O dinheiro não chega para tudo.
e dali a pouco
     - Pai, tu costumavas beber um copo de vinho à refeição e agora não bebes porquê?
e de novo o formato
     - Não pode ser. Bebo água. É mais barato. Uma garrafa de vinho compra 12 litros de água...
o vinho, mesmo o pouco que bebo, não é prioritário, como deixou de ser prioritário um reles café depois do almoço, daqueles que confortam a alma - que vale um litro de leite ou 3 pães - como tanta vez a prioridade do meu almoço "normal" na escola é substituida por uma sandes e um sumo
     com os filhos sempre na equação
ou este exemplo letrado de que, para um leitor compulsivo, qualquer livro é demasiado caro e jazem todos quietos nos escaparates das livrarias, alguns em danças sensuais para me atrair, enquanto sonho de forma húmida com alguns, como se fossem mulheres às quais jamais  sentirei sequer o perfume quanto mais o toque da pele
          15 ou 20 euros tapam 3 refeições em casa
e por conseguinte, ler é quando alguém oferece livros, empresta ou, como já tem acontecido, se voltam a ler livros já lidos há 5, 6 ou mais anos, na esperança de a história já estar meio esquecida e, portanto, parecer novidade; e outras vezes o sábado ou domingo trancado e casa, entre paredes e os filhos de olhos fitos nas movimentações paternais
     - Pai, porque razão quase nunca saímos para dar um passeio, nem almoçar num restaurante?
e a resposta ainda e sempre formatada
     - Não saímos porque o gasóleo/gasolina que iriamos gastar no passeio tem de ser para as viagens da semana, de e para a escola e passagens apressadas pelo supermercado.
     - E almoçar num restaurante?
    - Não dá. O dinheiro que se gastaria nesse almoço, dá quase para uma semana de refeições em casa!
     - Pai, porque não vamos ao cinema?
     - Sabes quanto custa ir ao cinema? Sabes para quantas refeições dão os bilhetes de cinema?
e portanto sempre assim, semana após semana, a contar - literalmente - os trocos e a fazer contas e tantas vezes a fé a ser requisitada para a crença de que 
     - vai dar, vai chegar!
e tantas vezes não dá e tudo como uma bola de neve, se não almoço fora, uma vez por mês que seja, não é estranho ver alguns restaurantes desertos de gente, alguns a fechar, com os donos a contar carros na ombreira das portas, os cartazes a atropelar nos passeios, paisanos que, como eu, percebem com um misto de espanto e revolta que os executores políticos conseguiram transformar um pouco otimismo restante num pessimismo militante, no que toca a alguns mecanismos de vida da espécie humana, os mesmos executores que enchem a boca com a palavra justiça, da qual seguramente não percebem o fundamento, os mesmos que se queixam da falta de crianças e realmente os mesmos filhos da p$t@ que retiram o abono de família, porque "há rendimento a mais", os mesmos filhos da p$t@ que injetam muitos e muitos milhões no BPN a soldo da "salvação da economia", os mesmos  filhos da p$t@ que conseguiram transformar a minha boa educação numa revolta amarga como fel!
Provavelmente, em nome desta "salvação" e não fosse a tremenda capacidade de sobrevivência de uma nação - ou o que resta dela - estariamos já todos bastante mortos!
Pela parte que me toca, Muito Obrigado!

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

TRÊS VEZES UM AVIÃO É IGUAL A AVENTURA

 Primeiro 757-300... D-ABOA

Um homem está em casa, não que lhe falte o que fazer, porque não falta

     tenho um livro para acabar de escrever, porra!

mas o bicho dos aviões morde e às tantas a comichão torna-se insuportável, mesmo que pouco antes, o Condor tivesse passado num vulgar 753 com a roupa antiga, um híbrido entre velho e novo, o coração na deriva e o azul esbatido, pouco depois outro e aumenta o grau de estranheza, sendo que então aí, a comichão começa o cerco que acabaria por ditar a lei quando, a dada altura, um terceiro Condor 753 surge no céu, este sim com uns trapos novos.
Ala que se faz tarde, agarra-se na máquina e a toda brida para as imediações do aeroporto, que haveria de fotografar os 3 Condores estacionados lado a lado, cousa se não única, pelo menos rara.
Chegado à zona das rampas, e o primeiro 753 (D-ABOA) já pronto a rolar para a pista 05. Ver os 3 meninos lado a lado já era...
Para variar, permanece a minha má relação com o tempo no aeroporto. Sempre encoberto, sempre escuro e as fotos sempre numa sombra de m&rd@ que deprime. Mas siga, tem de ser, seja lá como for, fique como ficar!
Lá consegui apanhar os 3 Condores 753, dois alinhadinhos e o terceiro prestes a fazer-se à estrada grande do céu.

 ...Segundo 757-300... D-ABOC

Passada mais meia hora, sai o segundo Condor (D-ABOC), a fotocópia do primeiro. Pista 05, escuro quanto baste e aquele chilrear característico do 757, não é música mas é como se fosse, sendo que entretanto tinha aterrado na 23 um 737 da Air Berlin que vinha disparado para a 05 e a páginas tantas dá meia volta sobre as Desertas para a 23 enquanto o 753 esperava à entrada do taxiway de acesso à 05.
Sai então o 753 (D-ABOC) e fico à espera do terceiro 753 (D-ABOJ), o dos trapos novos, aquele que, afinal de contas me arrancou do sossego caseiro para demandar o aeroporto em busca de (alguma) adrenalina

     o telefone toca, a conversa estica e o texto espera

e jet noise.
Ora, inicia-se o back track e o pânico instala-se. O nariz do D-ABOJ fica apontado à 23 e eu junto da 05, de máquina em riste para a retrataria que me havia levado ali. Mil e um impropérios, alguns que chegaram mesmo a ser falados e não só pensados e a dúvida: agarro no carro e corro para a 23, ou espero para apanhar a barriga do Condor quando ele aqui passar, já com 300 ou mais pés acima do solo?


Fiquei. E fiz bem. Porquê?
Porque entretanto, o D-ABOJ estaciona à entrada do acesso à 23 porque pela 05 estava a entrar um A320 da Air Berlin que deu meia volta na cabeceira da 23 e veio pista abaixo e entrou pelo taxiway que dá acesso à 05 porque o da 23 estava ocupado e portanto sucede que

     os profissionais spotters do Aeroporto da Madeira que me expliquem os taxiways (Alfa, Bravo e Charlie) que nunca me foram apresentados


avança o 753 D-ABOJ sendo que, surprise!!!, em vez de prosseguir para a 23, faz 180º e vem direitinho para a 05, enquanto eu, que não podia esfregar as mãos de alegria, louvava ao senhor S. Pedro o monumental arroto que fez mudar o vento de nariz para a 05 e trouxe, FINALMENTE, o Boeing 757-300 D-ABOJ para junto de mim e poder então fotografá-lo o melhor que conseguisse.
Estas peripécias todas - troca de pistas e esperas - atrasaram o dito cujo que, ainda a desfazer a volta na cabeceira da 05, mete reatores a fundo

     vide a fumarada da última fotografia

 Descolagem a toda a brida do 757-300 D-ABOJ!
E sim!  F#$@-se! O avião é lindo!

 e arranca rumo à terra da nossa senhora Primeiro-Ministro Angela Merkl.
    

sábado, 5 de Abril de 2014

O BURACO NEGRO NORTE-COREANO



Ao determo-nos sobre esta foto obtida a partir da Estação Espacial Internacional, percebemos pela (não) luz, o grau de alheamento relativamente ao mundo, verificável e decretado pela Coreia do Norte e respetivo regime.
Entre a China e a Coreia do Sul percebe-se, então, um manto escuro, que nem a capital Pyong Yang desfaz com a mais que timidez da sua iluminação, sobretudo se comparada com a sua congénere do Sul, Seul.
Há alguns anos (20, talvez) li na já extinta revista "Grande Reportagem", o relato de uma viagem ao - como lhe chamaram na altura - "Absurdistão". E, de facto, o relato era absurdo quanto baste, sobretudo quanto aos mecanismos para a manutenção do poder e a "dose" de regime e informação que é servida, oficialmente, naquele país.
Há alguns anos, José Luís Peixoto esteve lá e escreveu um livro sobre essa aventura, um dos livros obrigatórios que me faltam ler, dado o interesse que aquele regime e a forma como se mantém e é "aceite" me suscita.
Muitas vezes me detenho a pensar sobre o comum norte-coreano e sobre as suas "noções" acerca do mundo exterior que lhe é dado "entender", sobretudo no que toca à capacidade de sobrevivência e projeção de pensamento exteriores ao que o regime estabelece como adequado.
Confesso que exerce em mim um tremendo fascínio (tentar) perceber como vivem e que perceção tem da realidade, os milhares de norte-coreanos que vivem nas áreas mais remotas da já de si remota nação norte-coreana. O que que pensam, como pensam, o que sabe ou - melhor dizendo - o que não sabe aquela gente?
E outra pergunta salta óbvia. Que grau de felicidade auferirá aquela gente, não sabendo do que está para além do escuro? Aquilo que a nós - informados - provoca nós de garganta, medo, perturbação... Aquilo a que certamente os norte-coreanos não tem acesso e que faz parte do imenso escuro que embrulha as suas noites e, em certa medida os seus dias. Como será a luz norte-coreana? E o que revelará aos seus cidadãos?

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

DOS DIAS NO CALHAU (102)

Mais um magote de fotografias tiradas nos últimos dias, com o céu a apresentar algumas nuances relativamente ao statos quo aqui do Calhau...

















segunda-feira, 31 de Março de 2014

CRÓNICA DE NINGUÉM


Não consigo fechar a gaveta da inquietação, uma vez que lá dentro tudo está por resolver, isto é, coisas como peixe fora de água, abrindo e fechando a boca, de aflição, de espanto, de espera, ou apenas soltando palavras que ninguém ouve, que ninguém entende, palavras que se desfazem ao fim de segundos uma vez que esbarram apenas no ausência de tudo e portanto, supérfluas, incapazes, impotentes, talvez nem palavras e apenas letras arrumadas de certa forma a que se desejem fazer entender, letras sem lei, vadias, ladras, vigaristas, hipócritas, falsas, mentirosas
     que estão sempre para chegar e sempre para partir
letras sem forma, amorfas, nulas e de seguida a dobra do silêncio, vincada, nem sei se por engano ou desejo, mas vincada, indisfarçável, a pairar sobre os sussurros do tempo que não se queda nos relógios e circula imparável pelo ar,
     o peixe fora de água
com uma rede empunhada, como quem caça borboletas que ninguém vê porque pousadas nos buracos da alma, escondidas, encolhidas, de asas dobradas, ausentes, espreitando os movimentos exteriores, sustendo a respiração, o ar parado, não vento, não brisa e só vendavais inquietos, irrequietos, de nervos à flôr da pele, a calma em caixotes, pronta a deixar o lamento do cais, as gaivotas pairando sobre os movimentos, as sombras em rodopio, outras sombras paradas, outras não sombras porque nada que as produza, é estar e não estar, é ser e não ser, é sentir e não sentir, raiva, desprezo, desdém, 
     não ódio porque não odeio ninguém
alegria, contentamento, riso, choro, o prato mal comido, o caixote do lixo, o pão sobre a mesa, mordiscado pelos cantos, não por bocas, não por mãos, um copo meio vazio
     ou meio cheio
os talheres gastos, o guardanapo de lágrimas, a cadeira de lado, a almofada espremida, as formas de um corpo ausente,
     o peixe fora de água
arredado dali, em todo o lado e em parte alguma, inclinado, deitado, jogado à terra, refletido num espelho quebrado, desconexo, desencaixado, tal como este texto arrancado a ferros, que se armadilhou a si mesmo, a granada, a bomba, a explosão, o som, o não som, enfrentado quem o escreve, atropelando-lhe a intenção, mudando as regras, adiando o final
     que final?
porque nenhum texto acaba, porque nem texto, nem letras, nem mãos ou dedos que as embalem, o erro, a hesitação, a busca, o medo,
    o peixe fora de água
o pânico, o vazio, a incapacidade, o escrutínio, a fuga, a queda, o desamparo, a nódoa negra, a saliva, a ferida, o afago,  a gaveta, a inquietação, o desassossego, a espera, a esperança, o choro e o riso, o lamento e o fermento, a massa, o calor, o pão, o forno, o lume, depois o frio e afinal tudo e nada disto porque agora me rendo, porque nem sempre me aprendo.

©AL.Março2014

quarta-feira, 26 de Março de 2014

NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS!

As "empresas de bem-aventuranças" pagam, regra geral em dólares...

Confesso a quem me lê que a minha paciência para com um autêntico ataque em massa de gente - eventualmente respeitável - que, todos os dias, me "entra" no computador, prometendo dinheiro e vida fácil se seguir os seus "conselhos", já se assume como à beira do esgotamento.
Surgem pessoas anónimas atracadas a computadores portáteis,  em locais aprazíveis, desde a beira mar a belos apartamentos bem decorados uns e com belas vistas outros, quase sempre com mulheres apresentáveis, sorridentes, a revelar algumas partes magnetizantes, um ou outro cavalheiro de ar circunspecto, mas todos prometendo dinheiro e facilidades, garantias de nova vida, etc.
Eu, como casmurro, conservador, bota de elástico, etc., recuso-me, sequer, a espreitar o guião desses "filmes", provavelmente sob pena de perder algo interessante e de a minha vida, literalmente ou de forma figurativa, poder padecer de mais e maior pobreza. É um risco que corro.
Mas a fidelidade aos meus princípios obriga-me, portanto, a desprezar - respeitando quem não o faz - estas ofertas. Cada um dorme com a sua consciência, relacionando-se como quer com ela.
Sucede, então, que princípio da prudência vai-me lançando algumas perguntas óbvias, para a minha fogueira da negação:

- Porquê este súbito ofertório?
- Porquê tantas, mas tantas formas de obter "dinheiro fácil" e por onde têm andado este tempo todo?
- Estão ou não por trás destes esquemas, individuos que estudaram as fraquezas da economia e, também, a psicilogia das multidões mais ou menos angustiadas pelo encolhido alcance do seu orçamento?
- Que consequências - seja lá com que prazo for - estarão ao virar da esquina da facilidade?

O facebook, por exemplo, está assoberbado com estes anúncios "milagrosos" e a capacidade de lhes resistir, para mim, torna-se absolutamente crucial.
Desgraçadamente ou não, fui educado sob os princípios da honestidade e do trabalho e, de certa forma, a desconfiar de quem e do que me oferece mundos e fundos a troco de inércia. No fim destas contas, socorro-me da sabida afirmação: não há almoços grátis.

terça-feira, 25 de Março de 2014

DOS DIAS NO CALHAU (101) - DO SOL E DO CARNAVAL

Para quem não me segue no Facebook, aqui fica um bom magote de fotos que fiz nas últimas 3 semanas.









E do Carnaval passado...















Nota: O Blogger "rebenta" com a qualidade das fotos. Not my fault!