O que é que olhos veem?
Ondas teimosas que teimam em não crescer e de tão
pequenas, nem sequer ondas e apenas fracos lamentos de um mar em bicos de pés.
Junto à mesa, patinhando o chão, pombas obstinadas,
de pescoços espetados no fito de migalhas, o rádio da esplanada a debitar
músicas que se desfazem metros à frente, empurradas pelo vento e a crónica por
entre as cascas dos tremoços, a saltar por via das letras para as costas dos
papeis do multibanco
os únicos papéis que tinha na carteira aptos a receber palavras
uma espécie de inutilidade por onde vemos o saldo a
encolher por um lado, e a verborreia que se escapa a crescer por outro, sendo
que o destino está traçado para um qualquer ponto de lixo e no ar o vento maluco,
agitando as palmeiras, um avião de lado porque o vento também de lado e mais à
frente a pista ao viés porque o avião não direito, ou o avião ao viés e a pista
direita, o piloto automático em sonos e o piloto homem a corrigir motor, flaps,
leme, até que o avião no chão e as palminhas a bater
sem o rabinho a dar a dar
e talvez seja incrível como
se escreve nas costas do papel multibanco, enquanto a cerveja se evapora já não
no copo entretanto vazio, ao lado do pires das cascas dos tremoços, a letra de
médico e duas páginas escritas,
-
É louco aquele tipo que escreve vergado sobre a mesa em pequenos papéis e que
de quando em quando olha em redor a apanhar pedaços da paisagem que depois
incompleta no céu porque colada no papel!
as pombas ainda no chão, a trote de patas e se cães
perto, elas aos saltos com asas, provocações aos canídeos de orelhas murchas
- Tu ladras, mas eu voo e tu
não!
e se fogem logo voltam porque as migalhas talvez no
chão, enquanto os cães de focinho colado à calçada farejando elementos, as
crianças num parque próximo gritam brincadeiras e na mesa ao lado, uma senhora
desembrulha um cigarro que depois fuma no vagar dos desfiles, olhando a subida
enrolada do fumo azul e que depois uma rajada de vento desfaz sem piedade e a
senhora de novo sem fumo até mais uma travadela
-
Porque se trava o fumo? Tem pedal ou é tipo travão de mão? E se vai em curva,
pode fazer peão? E as pastilhas, com quantos quilómetros tem de ser mudadas? E
os travões são de disco ou de tambor?
o mecânico de olhos em bico
não chinês
macacão sujo de óleo,
uma mão a coçar a cabeça por cima do boné desbotado
José
Martelo – Serviços de Bate-Chapa, Lda. Orçamentos grátis!
e a senhora
agastada porque com pressa, o macaco no sobe e desce
-
Carregue no pedal! Solte! Carregue! Solte! Está bom! Pode sair!
E entretanto o relógio, o empregado que recolhe o
copo da cerveja e o pires de cascas de tremoços e como agora já sem cascas, sem mais
crónica!
Santa Cruz, 19 de Maio de 2012