sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O PRÓXIMO LIVRO

Ultimamente algumas pessoas me perguntaram se já estou a escrever o sucessor do "Memória de Pedra".
Quando me colocavam esta mesma questão há alguns meses, respondia que sim, que estava.
A resposta que dei recentemente é um pouco diferente... Um pouco não, bastante.
Não escrevo nele 
(nesse próximo? livro)
há cerca de um ano.
Tenho material recolhido, notas espalhadas por 4 ou 5 blocos, folhas soltas, talões de supermercado e multibanco, guardados numa gaveta. Não é uma questão de (des)organização, é sim a resposta a ideias que se me apegam e que tenho de registar rapidamente no primeiro suporte que a minha mão pegar. Tenho, inclusivamente, sms enviados a mim próprio com "flashes", dicas, ideias soltas...
O próximo livro - que temo estará não próximo, mas distante... - não será uma sequela do "Memória de Pedra", uma vez que não será feito de dezenas de textos soltos e quase sempre independentes uns dos outros.
Será
(espero)
um livro que exigirá muito mais do seu autor, uma vez que
(não lhe queria chamar romance...)
vai ser de uma história apenas, ainda que cheia de outras histórias que funcionam dentro da principal.
As coisas estão, como já referi, anotadas em muitos papéis e outras, arrumadas ou aos saltos dentro da minha cabeça. Umas ligadas
(poucas)
outras absolutamente anárquicas na sua existência.
É pelo facto de o livro ser muito, mas muito mais exigente de escrever que, presentemente, não tenho condições pessoais
(de espaço, de tempo, de dedicação, de "afastamento" do mundo, digamos)
para poder pegar nele e levá-lo a ser alguma coisa.
Depois, não tenho pessoas a trabalhar para mim, escrevendo no computador o que está manuscrito nas tais dezenas de páginas e folhas de blocos e soltas, etc., guardadas de forma mais ou menos zelosa numa gaveta. Todo - literalmente todo - o trabalho de digitalização e arrumação/ligação terá de ser meu.
Não faço, pois, a menor ideia de quando esse livro poderá ser uma realidade e, por vezes, duvido até que venha a ser uma realidade, uma vez que o tempo e o entusiasmo que são precisos e preciosos para uma tarefa destas não costumam relacionar-se da melhor forma.
Dependendo eu em absoluto deles,  temo que não me facilitem a vida.
AL

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ESCREVINHATÓRIO [27] - Borboletas



Hoje não vi borboletas.
Eram em tons castanhos e pelo meio tinham uns traços pretos.
Voavam soltas, como se o vento fosse gerido por elas e pelo seu bater de asas.
Mas não havia vento. A calmaria reinava.
Talvez porque não havia borboletas.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A PERGUNTA INCONVENIENTE NO PORTUGAL DESLUMBRADO


Guterres somou mais uma vitória na corrida a Secretário-geral da ONU. Vai na 5ª seguida e tudo corre de feição (?!) para mais um glorioso feito nacional, como já foi a conquista do Euro 2016;
O governo sorri 
(António Costa sorri sempre)
e distribui o que - diz ele - tem e outros tiraram com requintes de malvadez;
Os sindicatos, greves e demais lutas desapareceram, porque reina a paz laboral e tudo segue no caminho da resolução, através da distribuição de dinheiro – que o governo diz ter – para devolver a dignidade roubada por quatro anos miseráveis;
Os ricos vão, finalmente, ser chamados a pagar impostos e as vergonhosas acumulações de dinheiro serão justamente tributadas;
A emigração acabou, ajuizando pelo desaparecimento de reportagens diárias nas televisões e rádios sobre a debandada de portugueses, desencantados com o seu país e com os governantes;
O desemprego desapareceu dos noticiários e mesmo existindo, está em vias de resolução através do investimento que prospera - e que o governo diz ter garantido - e que criará, mais cedo ou mais tarde, centenas de empregos;
Pela primeira vez, apesar de não terem sido colocados os mesmos quase 30 mil professores, tudo correu às mil maravilhas e as rádios e televisões nem se lembraram de fazer as costumeiras reportagens 
(sempre deprimentes)
com os docentes deslocados e desempregados.  Mário Nogueira, juntamente com o Ministro da tutela puseram, finalmente, ordem no caos e na bandalheira de décadas. Quarenta anos para se conseguir o que parece óbvio e por conseguinte, antes deles todos foram ineptos.
O país está, portanto, a recuperar de 40 e tal anos perdidos, provando que é sempre tempo de emendar a mão dos errados caminhos trilhados até há quase um ano atrás, altura em que a governança atual tomou posse.
Considero que, de facto, o país está feliz, tranquilo, sossegado. Como nunca esteve.
O governo sorri, os ministros governam, os partidos que apoiam o governo apoiam-no, de facto e de forma insuspeita. Resumindo, tudo é favorável a Portugal. As condições são inigualáveis!

Escrevo sem ironia.

No meio deste tremendo positivismo que até a mim me invade – eu, um pessimista moderado e pensador livre de amarras ideológicas e partidárias – apenas uma pergunta, uma só, como que questiona tudo isto, estabelecendo o princípio incerto das gelatinas:
E quando o dinheiro acabar?

domingo, 25 de setembro de 2016

ESCREVINHATÓRIO [26] - Um dia

Um dia passei por ti e sem querer pisei-te a ponta dos pés.
Se viesses mais devagar ou mais depressa, não te teria pisado.
Lamentavelmente não te vi. Nem sei se eras tu ou se seria eu a querer que fosses tu.
Nunca percebi muito bem a diferença entre o querer e o ter, talvez porque nunca quis e por isso nunca te tive.
Em rigor és o meu maior falhanço.
Mas o teu pé não ficou negro.
Isto partindo do princípio que eras tu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DOIS ANDAMENTOS DE LUZ SOBRE A DESERTA GRANDE

 [15:20h]

A entrada do outono aconteceu hoje, pelas 15:21h.
O dia esteve aberto, quase quente, a lembrar que o verão rondava ainda a largura do tempo que o vento hoje não soprou com medo da perda eminente.
Com a atmosfera bastante limpa, as ilhas Desertas invadem o olhar sem módicos de recato ou licença.
Instalam-se e pedem que as olhemos naquele desassombro que nos encolhe perante as entidades que transportam a beleza e a distribuem sem esperar espécie de troca ou (re)tributo.

[19:15h]

Gosto do outono na mesma proporção do não gosto do outono. Deixa-me ali na limbo da inconsistência, na berma dos extremos.
Na dúvida, permaneço em silêncio, escutando os segredos inconfessáveis do vazio.

sábado, 17 de setembro de 2016

MEU QUERIDO CÃO QUINZENAL


«Adoro cães.
Às vezes eles são melhores do que as pessoas. Sociáveis, fiéis, sinceros. Presentes.
Tenho um belo pastor alemão. Grande e saudável, de pelo lustroso e forte. Um mimo!
Não vivo sem ele. Sem ele sou incompleto. É como se ele fosse uma parte de mim.
Se ele não está por perto parece que me falta sempre uma parte e portanto sou menos feliz.»
- Onde está o teu cão?
«Vive na casa do meu avô. É ele que trata dele. Eu não tenho tempo.
Só o vejo de duas em duas semanas!»
_____
Nota: Este relato é de conteúdo real, (embora "trabalhado" em termos de composição) sobretudo na forma como é rematado. As duas últimas frases são absolutamente reais. Ouvi-as numa esplanada de Coimbra, em agosto passado...

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

AS BROCHURAS DE DEUS

Duas testemunhas de Jeová - duas senhoras reformadas - estão sentadas num banco de jardim.
Instalaram-se, com o vagar próprio dos reformados a quem os relógios não cobram impostos de utilização e o tempo segue no seu caminho ancestral. Com elas  transportaram um pequeno carrinho-montra, onde em três andares metálicos, estão prostradas outras tantas brochuras, daquelas objetivamente pejadas da palavra de Deus, no caso do seu e a quem prestam testemunho temente e permanente, Jeová.
As senhoras mantêm-se a uma distância de segurança do pequeno carrinho-montra. Não estão demasiado perto para "não espantarem a caça", mas também não estão demasiado longe, no sentido de precaverem eventualidades e de, em poucos segundos, poderem interpelar os interessados nas brochuras de Deus Jeová, ou Jeová Deus, como dizem entre ligeiras vénias erguidas para o céu, orientando-lhes as palavras certas relativamente ao momento, com o fito de lhes agremiar a alma rumo ao testemunho divino.
Todo este taticismo posicional das senhoras, testemunhas, é, como está bom de ver, caucionado pelo próprio Jeová Deus e com algum versículo bíblico que o suporte e oriente, conforme faz com tudo o que "nos é dado pelo senhor Deus Jeová", o tal que "provê o mundo e que arrumará em breve este iníquo sistema de coisas!"
Aliás, as Testemunhas de Jeová são provavelmente os cristãos mais legalistas que existem, uma vez que tudo o que dizem e fazem tem o evidente suporte legar bíblico, uma espécie de Constituição, sem emendas, sem ajustes, sem revisões, apenas um livro supremo escrito pelo paciente e sábio punho alvo de Deus.
Voltando às senhoras, elas lá estão, lateralizando conversas entre si, arredando um ou outro perdigoto, contendo os gestos, sentadas de pernas juntas, malas sobre o colo, uma das mãos a desviar o sol dos olhos e da cabeça, ambas com expectativas moderadas relativamente ao incremento da palavra de Jeová junto dos passantes, confiam desconfiando, por mais brochuras de Deus que vistam de utilidade o pequeno carrinho-montra que transportaram e guardam com um zelo santo, mas contido.


©AL.2016

sábado, 10 de setembro de 2016

CINCO ANOS DE CALHAU COM OLHOS!

Há uma mão cheia de anos, fiz nascer este blogue.
Para além de idiossincrático - na sua essência, nas ausências e nas presenças - é um local de livre expressão do autor, seja pelos textos, crónicas e desabafos publicados, seja pelas fotografias que o vão decorando, tudo sem a menor expressão de ritmo ou regra.
Infelizmente, tem vindo a "perder gás", na exata proporção da falta de disponibilidade, da ausência de pachorra, de ataques de preguiça e outras variantes que levam ao silêncio e à inação.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

LEITURAS DO VERÃO 2016

Para não variar, algum do tempo de "férias" foi ocupado com a leitura.
Três livros - apenas - fazem a lista das leituras.
Comecei pelo "improvável" autor - Chico Buarque, com o seu romance "Leite derramado". Chico Buarque, como diria alguém, é mais música e canções e, portanto, quando aparece um livro por si escrito e que nem sequer é o primeiro, surge alguma desconfiança.
Não vos vou dizer que adorei o livro. Mas apreciei-o bem, sobretudo pelo facto de o ter lido com a musicalidade tão fácil do sotaque brasileiro e de algumas expressões que nos entram há décadas pela casa dentro através das telenovelas.
A escrita é boa, escorreita e percebe-se bem a história e ao que ela leva e, a espaços, faz lembrar algumas canções do autor. Parece até que nos canta algumas partes do livro.
O segundo livro foi "O Retrato", de Nikolai Gogol. São 125 páginas magníficas, de uma simplicidade muito difícil de cumprir e que retratam o sobressalto que um simples quadro que revela um olhar intenso, provoca em todos os que o observam. É uma viagem intensa às incríveis capacidades que arte tem para nos sobressaltar e até colocar à prova os nossos contextos pessoais e sociais. Gostei muito e recomendo, sobretudo para quem aprecia a arte e a pintura, em particular.

O terceiro livro foi um tiro no escuro. Chamou-me a atenção no meio de muitos numa feira do livro num pequeno centro comercial de Coimbra. "A liturgia do silêncio", de Afonso Valente Batista.
O livro é intenso, revoltado, é um sopapo bem dado no estômago ou um pontapé bem afinado nos tintins...
A dada altura é quase insuportável, tal é a revolta do seu autor - transportada para o personagem - contra o país e os seus "senhores". A guerra colonial e os seus espectros de morte vagueiam pelas páginas, à mistura com a solidão e o abandono dos velhos, a ingratidão e a angústia.
O livro rebenta com qualquer pretensão otimista ou positiva, conforme dita agora a "moda" e um certo politica e socialmente corretou ou, vá lá... "conforme"!
Quem não se sentir melindrado com a crítica que fiz, recomendo.
©António Luís
Agosto de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

MEMÓRIA DE PEDRA - Ingénuo breviário bancário


Quando era miúdo, o meu conceito de "Banco" - entendido como local onde se guarda(va) dinheiro - era simples e geométrico. Paralelepipédico e só com dois tipos de movimentação, sempre a força de mãos. Abrir e fechar. Dois movimentos tão contrários como o por e o tirar. Simples e prático.
O paralelepípedo era, portanto, uma gaveta onde o dinheiro das pessoas
     ou com pompa, "dos depositantes"
era guardado com um zelo de abelhas e vigiado pelas gravatas dos senhores que atendiam ao balcão.
Anos mais tarde, já adulto e perante a "crise bancária" que enche a boca dos especialistas, percebo que os administradores dos bancos brincam com o dinheiro que não lhes pertence, que retiram das centenas de gavetas que forram as paredes das instituições bancárias, mascarando a sua brincadeira com uma fenomenologia de termos fabricados em conluios obscuros, provavelmente em amplas salas onde se decide, entre candelária de estearina de tons escarlate e rebocadas paredes em luzidios tridentes de metais forjados, acompanhados com cânticos negros como o breu da noite dos tempos, o destino das "verbas" e dos "ativos".
Esta ingenuidade bancária terminou à força de trapaças várias, levadas a cabo por génios das finanças que quase sempre são ultrapassados pelas tenebrosas "forças das circunstâncias", essas bandidas aventesmas, pela irrequietude dos mercados ou pela volatilidade das combinações gasosas que se respiram, sobretudo se aliadas ao bater de asas de uma borboleta no outro lado do mundo, algures num paraíso de catálogo turístico, livre e desarbitrado de fiscalidade eunuca, capaz de recitar compêndios de ópera para pardais e tentilhões surdos e monogâmicos.
Sendo sabedor disto, preferia continuar a considerar válido o movimento da gaveta, onde pontificaria o meu nome, solene como um Sacristão a segurar o santo cálice no limbo da mesa do altar enquanto o senhor padre ajeita os vinhos em órbitas helicoidais e que o meu dinheiro estaria assim livre do génio revolucionário dos gestores das coisas alheias, sempre profícuos uns e solipsistas outros, enfiados em fatos e gravatas, deslocando-se como patinadores falhados em "carros da firma" e em "carros oficiais", espreitando um buraco eficaz e competente para nos enterrarem com as botas.

©António Luís
Julho de 2016