terça-feira, 22 de Julho de 2014

DOS DIAS FORA DO CALHAU - Pausa

 Foto: Filipe Jorge - Livro: "Coimbra vista do céu".

Seguem-se umas semanas (ainda) mais erráticas no Calhau com Olhos, de pausa provavelmente total.
Obrigado a todos os que demandam este blogue e vêem as fotografias que faço e fazem o favor de ler as coisas que escrevo.

Até breve.

domingo, 20 de Julho de 2014

CRÓNICA TATUADA

- Olhe lá, eu  nunca lhe disse que me tatuasse os piolhos que tive quando andava na escola, você esticou-se de mais!
e por isso não lhe pagarei porque os piolhos nada tem a ver com o nome dos namorados, dos rapazes, rapazolas, homens e alguns "coisos", alguns eram chatos, sim, lavavam-se mal e davam comichão, mas pilhos não
- Apague-mos!
mas o que me lembro bem é dos centímetros de comprimento das respetivas almas, o correspondente diâmetro, as acrobacias horizontais, o experimentalismo das posições, toda eu me torcia e a dada altura os pés onde a cabeça e a cabeça onde os pés
- O que sabia esse tal de Kamasutra?
o raio que o parta a todos que são todos iguais e são as minhas curvas, senhor, as minhas curvas que eles querem
- Quais curvas menina? Você é mais direita que uma régua!
e deixei a virgindade sozinha numa canoa a remos, pelo rio fora
- Ou seria o mar?
e desconheço se ela sabe nadar por via do naufrágio possível que há muitos penedos a espreitar por fora da água e a cegueira é tanta, derivada do choro, que ela pode não ver e afunda-se
- A menina viu o Titanic?
mas com um pouco de sorte encontra um marinheiro moreno, faminto que a resgate e 
- Esteja calado e faça o que lhe pedi que quero a minha vida escrita no meu corpo.
quer dizer, não é escrita, é tatuada, senhor, a minha pele é de sardas, tem uma cor que nem é carne nem é peixe, quer dizer é carne por que não sou peixe nem sequer de signo
- Mas os piolhos, menina, não foram parte da sua vida? Lembra-se da coceira na cabeça?
é feia e quero disfarçá-la e com rosas também, rosas vermelhas, cor de sangue
- Cor da virgindade, não é menina!
cor do sol quando se põe
- Você é um estúpido mal educado!
sobre o mar e se reflete nos meus olhos cheios de lágrimas que me farto de chorar senhor, aquele David ficou-me preso nas goelas, na garganta, não há dia que não me lembre dele, é como se fosse daquele musgo agarradinho ao meu corpo, o meu corpo feito tronco de árvore e toda eu abanava
- Da ventania, menina?
e nem era preciso vento que só o respirar dele me atirava ao chão e me fornecia de oxigénia para a vida
- Qual vento, qual quê senhor! O senhor não é nada romântico. Cale-se e tatue-me!
e quantas vezes me erguia depois, aturdida de sentimentos, preenchida e um dia aquele estupor desapareceu de mim, nunca mais o vi, nem debaixo da cama, nem encarnado num candeeiro de rua junto à minha casa que acendia e desligava cada vez que me aproximava dele e pensava eu que era ela a piscar-me o  olho, convidando-me para aquelas sessões de desgraça senhor
- Tatue-me um candeeiro, se faz favor, senhor! Eu pago!
e o que faço agora sem ele, caramba, que devia tê-lo amarrado com uma corda feita de lençóis, feita da roupa que eu tirava com o fito da possessão e nunca mais o vi, foi-se embora, desapareceu na curva da minha anca, no refego do meu seio direito, mas sumiu-se
- Procure no esquerdo menina, quem sabe se...
nesse não que ele era às direitas
- Desenhe-me aí uma estrada, senhor e assim no fim coloque a figura de um homem, como se fosse ele e por trás um sol vermelho e grande.
que o filho da mãe levou-me com ele e ainda hoje me procuro, eu que agora já nem sei se era David se Rafael, que nunca fui boa a fixar nomes nem caras.

DOS DIAS NO CALHAU (107) - Andanças andadas (II)