domingo, 14 de Setembro de 2014

TREINADOR DE MATRECOS - O SPORTING (3)


Não é muito frequente deter-me na bola e nas suas lateralidades.
Mas de quando em quando aventuro-me e solto palavreado. Não sou perito, mas também não sou totalmente incapaz ou sequer burro para não entender o essencial.
Ora bem, o presidente do Sporting
- clube com que simpatizo desde os meus 11 anos
soltou a língua e decidiu profetizar que o "Sporting é candidato ao título!" 
Fez o que achava que deveria fazer e o problema é/será dele, quando muito...
... Mas sucede que à quarta jornada e assumindo que os rivais ganharão os seus jogos (o SLBenfica já o fez), está já cavado um fosso demasiado penoso entre o clube verde-branco e os rivais.
A equipa joga pouco
- não me deterei nos porquês porque nem conheço o nome de todos os jogadores
os dirigentes não dominam o "metier" paralelo,
- o que decide de facto as coisas
pelo que as declarações do presidente só o ridicularizarão a ele e ao clube a que preside.
Sempre me ensinaram que é preciso tento na língua e, portanto, Bruno de Carvalho vai ter de engolir o que disse e talvez só depois perceba que antes de atacarem as suas presas, os grandes predadores se embrulham num silêncio"fatal"...
Neste caso, quase todas as palavras que se digam, só estragam...

sábado, 13 de Setembro de 2014

MEMÓRIA DE VERMELHO E AREIA

 Praia de Mira, 25 de agosto de 2014

As férias na praia, em grande parte da minha infância e adolescência, foram passadas na Praia de Mira.
Era um local pacato, com uma areia limpa, bom ar de mar e pinhal, uma "barrinha" em modo de quase fossa ao ar livre, mas na praia o "problema" era um mar quase sempre muito pouco dado a aventuras e simpatias.
A frente de praia era na altura marcada por diversos mastros, bem visíveis, listrados a vermelho e branco, feitos de pau de eucalipto e estrategicamente colocados, que anunciavam através do riso das bandeiras neles hasteadas, como estava o mar uns quantos metros mais abaixo.
Em grande parte dos dias de férias que lá passava, talvez nuns dois terços, a bandeira hasteada era a vermelha, sinal de que o mar estava pouco amigo dos banhistas, fosse pelas ondas fortes e grandes, fosse pelas traiçoeiras correntes.
Na minha mente de petiz, contudo, aquilo causava-me alguma espécie, uma vez que a cor vermelha das bandeiras impedia que eu brincasse na água e me aventurasse mais um pouco nas ondas.
De maneira que fui cultivando uma "raiva" silenciosa às bandeiras, sobretudo à vermelha, que se agravava quando, do alto da minha experiência acumulada durante anos, achava que o mar até estava bom e que, portanto, colocar bandeira vemelha era uma espécie de provocação ou, ainda mais elaboradamente, achava que os "banheiros" (como eram conhecidos na altura) e agora "nadadores salvadores", queriam era estar descansados e não estavam para se chatear para ir buscar gente aflita às ondas, uma vez que a bandeira vermelha, ainda assim, sustia bastante a entrada na água de qualquer maneira...
Ora bem, sucede que, em face de tudo isto e para resolver o assunto e ver mais vezes outras cores nos mastros - o amarelo e o verde, claro - cheguei a engendrar na minha inocente cabeça que a solução para a coisa passaria por roubar - fazer desaparecer, vá - as bandeiras vermelhas, que ao final da tarde eram zelosamente guardadas numas pequenas cabanas de madeira colorida e listrada de azul e branco, que se situavam justamente junto a esses mastros. Fiz essa investigação, acompanhando em silêncio e a uma distância prudente, a "cerimónia" do arrear das bandeiras, seguindo depois com o olhar, os movimentos do "banheiro"...
O plano era ainda mais elaborado, talvez sinistro, quando cheguei a prever que um "exército" de miudos com a mesma vontade que eu tinha, haveria de fazer desaparecer todo o tecido vermelho das lojas de panos num raio de 20 quilómetros e que, por isso, seria impossível substituir as bandeiras vermelhas entretanto "desviadas" das arrecadações de praia e inviabilizar qualquer tentativa de hastear bandeiras rubras, para que eu pudesse ir para o mar e estar mais à vontade.
E por tudo isto, lembro-me também de antipatizar de forma mentalmente agressiva, com os "banheiros" que, segundo a minha fundamentada opinião, não percebiam nada do mar e queriam era não se chatear muito, para poderem estar a fazer-se de muito bons para as raparigas...
Este Verão voltei à Praia de Mira. Lembrei-me desta e de outras histórias.
Ironicamente ou não, no dia em que lá fui, o mar estava invulgarmente calmo e a bandeira verde reinava em todos os mastros.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

3 E 10

 3
Completam-se hoje 3 anos sobre a criação do Calhau com Olhos.
O que é o Calhau com Olhos?
Leiam aqui ao lado e percebem tudo. Nada de muito complicado, até.
Nestes 3 anos, nada de mais aconteceu, a não ser as 480 entradas, entre fotos, desabafos e aquilo a que com alguma presunção chamo de crónicas, bem com as 26 500 visitas e as 50 mil e poucas páginas lidas.
Se é pra continuar?
À partida sim. As notícias sobre a morte da blogosfera são manifestamente exageradas e nem o "delírio" facebookiano a anulou.

10

Foi algures em setembro de 2004 que fiz a iniciação na blogosfera.  Há 10 anos.
Esse blogue primeiro chamava-se "Sentidos Percebidos" e durou até 2007. Nesses quase três anos de existência, para além do que nele escrevia, passei a escrever também numa coluna semanal no jornal "Gazeta das Caldas", justamente intitulada "Sentidos Percebidos", uma vez que na altura vivia em Caldas da Rainha.
Ainda no domínio dos blogues pessoais, passei pelo "Avenida Sniper", "Ataque de Caspa" e "Latitude 40", tendo a coisa terminado no atual "Calhau com Olhos".
Eram projetos pessoais, sem grande pretensão, mais ou menos no atual figurino deste de onde escrevo e nunca passaram de uma mediania deprimente. Como não sou nem aspiro a famoso ou vedeta, fico feliz se for lido/visto por 10 ou 20 pessoas em cada edição que lanço na grande rede.
Participei também em projetos de escrita coletivos, como o "Jogo de Possíveis" (de 2005 a 2007) - que viria a ter edição escrita no Jornal de Penacova e depois desse, no "O Homem das Tabernas" (de 2008 a 2013), blogue que conquistou 2 prémios nacionas na categoria de Humor e sátira (um 3º lugar em 2011 e 2º lugar em 2012) e foi visto  mais de meio milhão de vezes.
Em 2006 fundei o então blogue dedicado à minha grande paixão - a aviação - de seu nome "Pássaro de Ferro". De  blogue de histórias pessoais com aviões, passou a site em 2010, ganhou conteúdos, mudou de aspeto, ganhou importância e mantém-se hoje como uma das principais referências no domínio da aviação online em Portugal (sobretudo a militar), tendo já ultrapassado o milhão e meio de visitantes.
Nestes 10 anos, perdi a conta aos tantos mas tantos milhares de palavras e linhas/frases escritas, algumas intensas, outras levianas, outras pouco mais que nadas, sobre banalidades, sobre assuntos graves, a humanidade, a política, o futebol, a vida... mas sempre, sempre em perseguição de uma marca de escrita. Não dariam um livro, mas seguramente vários...
Nunca gostei de escrever de forma direta, digamos. Procurei sempre "decorar" as palavras e as frases. Admito - evidentemente - ter escrito coisa más, péssimas até, mas era o que o momento propiciava e seguramente que só se aprende errando e escrevendo sempre mais.
Se daqui a 10 anos fizer novo balanço, é sinal que o mundo cá permanece e não morreu em mim o ímpeto tantas vezes indomável da escrita.
Obrigado a todos os que ao longo destes 10 anos, uns mais de trás, outros mais recentemente, fazem o favor de me ler, criticar e/ou apreciar.

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

O ENCANTADOR DE BORBOLETAS

O vento sabe sempre por onde tem de passar mesmo que pelo caminho faça abanar copos que decapitam no limbo do seu vidro, a delicada pele do tempo dos relógios, copos na sua normal calma de estátua posta em cima de mesas pelo zelo dos empregados, enquanto que no quintal de água ali à frente, não borboletas e apenas algumas gaivotas e vozes de pessoas vagas, sem rosto, escondidas atrás de óculos de sol enquanto a teimosia obstinada das pequenas ondas quebra a lisura aborrecida das águas e ao lado da mesa cinzenta, o homem sentado, cotovelo no tampo e mão no queixo, contemplando o padrão do pavimento, guardando a rede na ponta de uma haste metálica revestida por um plástico fino, cozido pelo sol e pelo uso das mãos, ao mesmo tempo que borboletas imaginárias esvoaçam num céu quase semeado de gaivotas que pairam
já escrevi
sobre vozes e silêncios que pertencem a rostos vazios, que trocam de toalha e chinelos quando descem ao prateado da água pejada de segredos que as bocas que nela nadam despejam, na expulsão das águas orais, atrevidas na sua entrada pela cavidade por onde o ar faz palavras a movimentos de mastigação, tão indesejadas como o desalinho desconchavado desta crónica que se auto-escreve tão errática como o voo das borboletas que só voam na imaginação do homem sentado à mesa e portanto nenhum encanto e por conseguinte muito menos um encantador quanto mais escrita, quanto mais crónica e por isso, onde engordam as frases senão no teto do céu onde engordam também as nuvens que sobrecarregadas e fartas de si e das suas formas, largam a chuva tocada pelo vento que sabe sempre por onde tem de passar mesmo que pelo
o empregado naquele zelo de passos, a bandeja numa mão equilibrando vidros de fábrica enquanto que a outra mão gesticula para o balcão onde o dono espanta as borboletas dele e as tranca na caixa registadora, ao mesmo tempo que a cozinheira apregoa o serviço para as mesas numa voz de sereia sem mar e na cabeça dela borboletas e mariposas que são sono e corpo cansado, os clientes distantes olhando o mar na desconfiança das marés
- Está a subir ou a descer?
a maré uma borboleta hesitante,
- Conta as ondas e vê se sobem ao degrau...
que não se decide no seu estado de aprumo e prontidão, a maré teimosa, obstinada, estendida numa toalha feita de tempo, sem rugas na pele, sem cabelos brancos, segura da sua memória escrita a golpes e contra golpes de ondas, calmarias e tempestades, quantas em copos de água e quantas fora dos copos que se entornam a ante a razia plana de palavras que se escapam ao silêncio que as guarda temerário de coragem dentro das gargantas e por vezes na boca e quantas vezes só se sabe o que se quer dizer quando já se disse e portanto lá vai bala, sem cordel, sem recuo, sem câmara lenta, sem repetição, sem comentário, sem som, sem corpo, sem sorte, sem vento, sem maré, sem nada, sem borboletas, sem rede e portanto sem crónica.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

"MANHÃ SUBMERSA"

Nunca tinha lido Vergílio Ferreira.
Numa estante da "biblioteca" do meu pai, demandei por livros que me despertassem a atenção e ao fim de minutos esbarrei neste.
Como leio de tudo - incluindo rótulos de detergentes em locais "inusitados" - peguei nele e avancei. As férias permitem veleidades mil.
Cedo a coisa me prendeu.
História de um seminarista "voluntário", algures no "Estado Novo", num seminário da Beira.
A história respira o Portugal de Salazar por todos os poros e mais alguns e com ela e por ela, percebemos o noite e dia daqueles tempos.
A escrita é, como seria de esperar, cuidada, cheia de romantismo e algum barroco, sendo que, como é habitual nas minhas leituras, o livro ficou generosamente semedado de sublinhados e notas.
240 e tal páginas e 10 dias de leitura distribuida pela preguiça do tempo.
Gosto de ler os nomes da escrita portuguesa de tempos recuados e preceber como neles há a condição necessária e suficiente que fez história e moldou muitas figuras e a ações próprias de um tempo específico.
Lendo nas entrelinhas e nos silêncios, percebemos um pouco de alguma matéria de que somos feitos e que se fez durante muitos anos, alicerçada em Deus e nas figuras tutelares do governo, qualquer delas não raras vezes de um absoluto domínio. Castrante e depois... revoltante.

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

"A MÃO DO DIABO"

Um dos livros que li durante as férias foi "A mão do Diabo", de José Rodrigues dos Santos (JRS).
Nunca tinha lido nada escrito por ele e que os "especialistas" chamam "romance".
Li-o em tempo recorde. 580 páginas em escassos 4 dias.
Mas o facto de o ter lido quase de um fôlego, ao contrário do que se possa pensar, não foi sinal de ter ficado (positivamente) impressionado.
O livro prende - prendeu-me - porque o seu enquadramento é atual e radica na "crise" que atravessamos, explicando alguma da sua origem e fatores de atuação sobre a vida presente. Por aí JRS manipula bem a coisa e consegue os seus intentos.
Há lá um "romance" semi-intrincado, primeiro entre um português e uma espanhola e, latente, mas demasiado previsível, entre o mesmo português e uma funcinária de um lar de idosos em... Coimbra. E, na minha pessoal análise, peca por alguns "erros e saltos" que talvez carecessem de um pouco mais de "arte" no seu trato
Sempre que leio um livro, estou sempre acompanhado de um lápis onde faço sublinhados e, sempre que a leitura o justifica, tomo notas de leitura.
Por exemplo, no livro que li antes deste sobre o qual aqui me detenho - "Manhã submersa" de Vergílio Ferreira, sublinhei e tomei muitas notas porque há ali matéria em termos, isto é, frase cuidada, eufemismo, metáfora e muita arte no uso das palavras e na construção das frases.
Nas quase 600 páginas de "A Mão do Diabo", não fiz um sublinhado ou tirei uma nota lateral.
JRS pode ser um escritor no sentido em que exerce o ato da escrita. Arruma as palavras como se sente à vontade e/ou com o propósito que pretende mas, de facto e tomando apenas a leitura deste livro em apreço, não poderá ser chamado de "escritor" no sentido em que se chama a um Lobo Antunes, Saramago, Pessoa, Vergílio Ferreira, Cardoso Pires...
A escrita de JRS é direta. Como costumo dizer, "de carregar pela boca", como algumas espingardas...
O tiro, a ajuizar pela minha própria reação face à sua leitura, foi absolutamente certeiro.
Mas só isso.
E continuando com a sintomatologia... não fiquei com vontade de ler outros "romances" seus.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

DOS DIAS FORA DO CALHAU - Pausa

 Foto: Filipe Jorge - Livro: "Coimbra vista do céu".

Seguem-se umas semanas (ainda) mais erráticas no Calhau com Olhos, de pausa provavelmente total.
Obrigado a todos os que demandam este blogue e vêem as fotografias que faço e fazem o favor de ler as coisas que escrevo.

Até breve.

domingo, 20 de Julho de 2014

CRÓNICA TATUADA

- Olhe lá, eu  nunca lhe disse que me tatuasse os piolhos que tive quando andava na escola, você esticou-se de mais!
e por isso não lhe pagarei porque os piolhos nada tem a ver com o nome dos namorados, dos rapazes, rapazolas, homens e alguns "coisos", alguns eram chatos, sim, lavavam-se mal e davam comichão, mas pilhos não
- Apague-mos!
mas o que me lembro bem é dos centímetros de comprimento das respetivas almas, o correspondente diâmetro, as acrobacias horizontais, o experimentalismo das posições, toda eu me torcia e a dada altura os pés onde a cabeça e a cabeça onde os pés
- O que sabia esse tal de Kamasutra?
o raio que o parta a todos que são todos iguais e são as minhas curvas, senhor, as minhas curvas que eles querem
- Quais curvas menina? Você é mais direita que uma régua!
e deixei a virgindade sozinha numa canoa a remos, pelo rio fora
- Ou seria o mar?
e desconheço se ela sabe nadar por via do naufrágio possível que há muitos penedos a espreitar por fora da água e a cegueira é tanta, derivada do choro, que ela pode não ver e afunda-se
- A menina viu o Titanic?
mas com um pouco de sorte encontra um marinheiro moreno, faminto que a resgate e 
- Esteja calado e faça o que lhe pedi que quero a minha vida escrita no meu corpo.
quer dizer, não é escrita, é tatuada, senhor, a minha pele é de sardas, tem uma cor que nem é carne nem é peixe, quer dizer é carne por que não sou peixe nem sequer de signo
- Mas os piolhos, menina, não foram parte da sua vida? Lembra-se da coceira na cabeça?
é feia e quero disfarçá-la e com rosas também, rosas vermelhas, cor de sangue
- Cor da virgindade, não é menina!
cor do sol quando se põe
- Você é um estúpido mal educado!
sobre o mar e se reflete nos meus olhos cheios de lágrimas que me farto de chorar senhor, aquele David ficou-me preso nas goelas, na garganta, não há dia que não me lembre dele, é como se fosse daquele musgo agarradinho ao meu corpo, o meu corpo feito tronco de árvore e toda eu abanava
- Da ventania, menina?
e nem era preciso vento que só o respirar dele me atirava ao chão e me fornecia de oxigénia para a vida
- Qual vento, qual quê senhor! O senhor não é nada romântico. Cale-se e tatue-me!
e quantas vezes me erguia depois, aturdida de sentimentos, preenchida e um dia aquele estupor desapareceu de mim, nunca mais o vi, nem debaixo da cama, nem encarnado num candeeiro de rua junto à minha casa que acendia e desligava cada vez que me aproximava dele e pensava eu que era ela a piscar-me o  olho, convidando-me para aquelas sessões de desgraça senhor
- Tatue-me um candeeiro, se faz favor, senhor! Eu pago!
e o que faço agora sem ele, caramba, que devia tê-lo amarrado com uma corda feita de lençóis, feita da roupa que eu tirava com o fito da possessão e nunca mais o vi, foi-se embora, desapareceu na curva da minha anca, no refego do meu seio direito, mas sumiu-se
- Procure no esquerdo menina, quem sabe se...
nesse não que ele era às direitas
- Desenhe-me aí uma estrada, senhor e assim no fim coloque a figura de um homem, como se fosse ele e por trás um sol vermelho e grande.
que o filho da mãe levou-me com ele e ainda hoje me procuro, eu que agora já nem sei se era David se Rafael, que nunca fui boa a fixar nomes nem caras.

DOS DIAS NO CALHAU (107) - Andanças andadas (II)