sábado, 27 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (16) - A Luz


Que luz é aquela que destapa as mantas do dia?
Por onde andam os teus passos que de silêncio não os sinto, nem aos pés que os calçam na penumbra do ar respirado?
Que mar é aquele, cinzento, a dizer-me coisas por entre a espuma que acaricia as rochas, insistente, repetitivo e teimoso?
Que luz é aquela que aconchega as mantas da noite?

sexta-feira, 26 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (15) - O que sucede...

...é que a escrita tem acontecido, mas em forma de projeto de livro, em formato isolado e longe de olhos que não sejam os do seu autor.
Isto é, está (finalmente) o livro "Memória de Pedra" encaminhado para publicação e trabalho já noutro projeto, provavelmente outro livro, num formato diferente do Memória de Pedra.
A pergunta pode surgir rápida:
- Mas ainda não publicaste o primeiro já estás a tratar de outro?
Correto. Por enquanto ainda há entusiasmo e a receita é seguir de braço dado com ele.
Seja como for, não almejo deslumbres de maior nem me coloco em biquinhos de pés por via disso, arvorando-me em algo que não sou.
Navegação à vista, esperança em doses adaptadas ao contexto e à realidade.

domingo, 14 de junho de 2015

DOS DIAS NO CALHAU (120)

Mais algumas fotografias obtidas neste "exílio de coisas".

A 3ª maior cidade flutuante do mundo. "Anthem of the seas".

Amanhecer.


O Cristo Rei sob nuvens escuras.

Santa Cruz, à noite.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (14) - Duas notas


Nota 1 - Causa-me perplexidade quanto baste este afã de notícias e de reações às movimentações da bola. Quanto baste porque é preciso dizer coisas, é preciso que aconteçam coisas para que o falatório siga o seu caminho e as opiniões saiam pelas bocas cheias de revolta, a revolta que não sai, por exemplo, quando os governos nos apertam ao tutano da paciência. Uma revolta que se consuma e projeta para além do mundo imediato de cada um, demasiado absorvente e, portanto, esta espécie de "destilaria coletiva" só pode ser, de facto, um serviço público de dimensão meta-social que muito boa gente usa para manter os seus níveis de sanidade, por mais insano que tudo isto pareça.
É preciso relativizar as coisas e, ao mesmo tempo, estabelecer novos ângulos para a sobrevivência.

Nota 2 - Fiz hoje cumprir um sonho a dois alunos, rapazes com características especiais que, vivendo numa ilha e a menos de meia dúzia de quilómetros do Aeroporto, nunca o haviam visitado e muito menos terem estado junto a um avião.
Várias vezes dei por mim a olhar para eles e para as suas expressões, o quanto se sentiram cidadãos do mundo, entre tantas centenas de cidadãos do mundo que estavam naquele edifício, eles que vivem mais ou menos emparedados entre o local onde moram, a escola e, de quando em quando, umas incursões à cidade capital da região.
Vi um brilho nos seus olhos que suplantou, de longe, qualquer alegria que, por exemplo, o clube de futebol com que simpatizo me brindasse ao sagrar-se campeão. Um voo alto para eles, mesmo não tendo tirado os seus pés de solo firme. Mas vi-os voar!
Não troco uma experiência absolutamente humana por nenhuma algazarra, vozearia ou "alegria" que o futebol que queira dispensar.

domingo, 31 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (13) - Maio



Não há de ir o maio embora sem te dizer
que no seu céu arderam estios
longe que esteve o agouro molhado de chover
arredadas que andaram as trovoadas
no maio maduro de poucos frutos.
tempo de teus mil olhares absolutos.

Não há de ir o maio embora e te digo
por entre as cores e as flores dos montes
que entre tantas palavras mendigo
que do tanto calor se calaram fontes
penduradas no sol que trazes contigo.

Não há de ir embora o maio a ver-te pelas costas
tu que lhe lanças os teus olhos de espanto
e nos braços tão cheios como gostas
a soldo da tua alma e encanto
não há de ir o maio embora pelas portas
e te apertar o coração afagado num manto.

©AL.2015

quinta-feira, 28 de maio de 2015

DOS DIAS NO CALHAU (120) - "Anthem of the seas"

Na passada 2ª feira fui de propósito à baixa do Funchal para "apanhar" o maior navio de cruzeiros que alguma vez atracou na capital insular e simultâneamente, o 3º maior navio de cruzeiros do mundo.
Havia muitas dezenas de pessoas prontas a fotografar o navio que zarparia do porto pelas 19 h. E não falhou.
O navio é de facto grandito, digamos, com uns módicos 347 metros de comprimento, altura de um prédio de 15 andares, aumentada quando uma grua panorâmica se revela na vertical (visível em algumas fotos) e quase 170 mil toneladas de arqueação bruta e capacidade para quase 5 mil passageiros e 1 500 tripulantes.
Enquanto fotografava, alguns dos paisanos que registavam o momento nos diversos suportes que empunhavam, iam debitando sentenças sobre o acontecimento e o navio em si. Nada de especial, digamos, uma vez que a opinião é livre, por mais inusitada que seja.
Mas algumas "pérolas" são demasiado preciosas para não serem reproduzidas. Por isso, limitar-me-ei a reproduzir esta:
«-Vão mais de 10 mil pessoas ali dentro... Onde guardam tanta "m&rd@" de tanta gente a "c@g@r"?»








sábado, 23 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (12) - O Fogão


«E ali estava Matilde, encostada a um fogão imaginário, temperando doses de paciência metida dentro de tachos invisíveis, com temperos e ervas que não tinha, envolvidos por uma colher feita de coisa nenhuma.»
©AL.2015 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA / UNITED STATES OF AMERICA

Nova Iorque/New York

Desde pequeno que os Estados Unidos são um dos meus países preferidos.
Provavelmente este interesse - não político e apenas geográfico - decorrerá das influências que a visualização de cinema de produção norte-americana foi construindo, aliado ao meu gosto pela aviação, sobretudo a militar, de que os EUA são grandes produtores.
Por ser um país tão vasto, é constituído por mil e uma paisagens, desde as metrópoles imensas, com Nova Iorque à cabeça, até ao Monumental Valley ou lugares de igual e esmagadora beleza natural. Essas sim, exercem um enorme fascínio!
Não sei bem porque razão, uma boa fatia do tráfego que demanda esta página é oriunda justamente de lá. Da semana passada, por exemplo, foi dos EUA que mais visitas e páginas visualizadas se registaram, praticamente o dobro das registadas em Portugal.
Para agradecer ao "amigo americano", fica esta referência, jusf for the record!

Monumental Valley

From my early age, United States is one of my favorite countries.
Probably this interest - only geographical and not political - will run from influences that were produced mostly by cinema, and also by the "american way of life and the american dream". And also by the influence of military aviation, designed and produced on the US, as one of my favourit interests
For being such a big country, it consists of a thousand landscapes, from the huge metropolises, with New York on top of all of them, to the Monumental Valley or places of overwhelming natural beauty.
I don´t know why, a good share of traffic on this page is registered, precisely, from the United States. Last week, for example, the US was the main origin of the visits and page views, almost twice as high in Portugal.
To thank the "American friend", today's reference, jusf for the record, is written also in english.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (11) - Dez meses sem Miguel

Crédito na imagem.

«(...) era aquele silêncio escuro das horas mortas, até ao próximo comboio, cortado pela insistência repetitiva dos grilos, pelos latidos desafinados do cão da Estação a ladrões imaginários, aos intrusos dos seus sonhos feitos dos restos do jantar e de quando em quando o corte agreste de uma motorizada esganiçada, estrada acima, a largar aquele fumo azulado de churrasco de escape, a queima da gasolina de mistura a dois tempos, o funil de plástico junto ao balde da areia, a empregada da bomba de vassoura  numa mão e a mangueira na outra, esfregando a limpeza ao pavimento naquela pressa impossível da calma, por baixo de uma luz esbranquiçada e ténue, a sua cabeça à banda como quem escuta sons, a mudar as fraldas do filho de dez meses deixado à avó
     quantas avós são mães duas vezes?
a avó há anos sem barriga de mãe mas sempre mãe
     dez meses de Miguel
a empregada de nariz em pingo, assoado em cortejos teimosos de braço, mão e lenços, a fralda do Miguel em volumes generosos, a bisnaga da pomada no cesto das limpezas, entre um corta-unhas ferrugento, o saco do algodão de boca rasgada à pressa, o cesto uma feira franca de coisas, sem barreiras, sem pré-definições ou exigências, o pequeno postigo da casa de banho virado para as traseiras onde quase nunca o sol, ou apenas uma nesga de sol em vinte dias de junho, o postigo com vista para a linha de comboio sem comboios e antes dela a bomba de gasolina e quase no fim da madrugada apenas o noturno arrastado, de locomotiva barulhenta, com os passageiros de cabeça nos vidros das janelas, acertando o sono no ondulado dos carris, na tremura das travessas, na gravidade centrífuga das curvas, descendo a serra semeada de pequenos lugares cobertos de silêncio e povoados de ausências (...)»

©AL.2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

COMENTARISMO MEIGO SOBRE VIOLENTA VIOLÊNCIA

Foto: JN

Nos últimos dias, muita gente tem demonstrado a sua revolta e indignação face às imagens que, sem licença, nos entraram em casa em forma de alguns episódios violentos, decorrentes da euforia ou frustração instalada depois do SLBenfica ter vencido mais um nacional "torneio da bola.
Com mais ou menos cátedra, o comentarismo foi sempre de apologia da não violência, quase meigo, até, indignado, de mão no peito, em contraponto aos estafermos que tomaram o futebol de assalto e o transformaram numa passadeira de frustrações, revoltas e ódios de estimação, numa coutada de coitados sem perspetiva ou objetivo.
Contudo, não vi nem li muita gente a comentar que alguma dessa violência perpetrada, é caucionada, semanalmente, em diversos programas de comentarismo desportivo, que se arrastam horas a fio, "moderados" por alguns "moderadores" que, lá no fundo, anseiam por altas labaredas na casa coletiva da bola, degladiando-se pelos horários e pelas fatias da telemetria.
Alguns dos "comentadores" desses programas apressaram-se a condenar a coisa e os atos, olvidando-se da sua própria responsabilidade semanal, mais ou menos implícita, porque são quase sempre trauliteiros, revelam mau perder, são cínicos, empalados e usam uma linguagem de vão de escada, a troco de animação das audiências esgazeadas pela bola feita ópio, do gáudio dos patrocinadores, dos esfregares de mãos dos diretores das televiões, rádios e jornais.
Há que alimentar a tremenda rede de gente que depende do futebol, sobretudo dos seus epifenómenos, sendo que a própria violência - praticada e condenada - contribui para o pão para a boca.
Não alimentemos ilusões de mudança, porque no mundo da redes sociais e comunicacionais e da disseminação da opinião, benzida pela liberdade conquistada, as coisas vão seguindo o seu caminho, mais arrepio menos arrepio, mais indignação menos indignação.