sábado, 2 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (9) - A morte como promessa de vida


Conheço bem o "fenómeno" dos peregrinos, em maio, a caminho de Fátima.
Habituei-me a vê-los em Coimbra, atravessando a cidade em direção ao santuário.
Sempre se ouviram e leram histórias de atropelamentos, acidentes e incidentes, fosse por manifesto descuido dos caminhantes ou por culpa dos automobilistas incautos.
Hoje de madrugada, justamente já a sul de Coimbra, cinco peregrinos de Mortágua perderam a vida, atingidos por um automóvel em despiste.
Era gente que rumava a Fátima, cujo motivo cada um deles saberia mas que, ansiando muito provavelmente por mais e melhor vida, acabou por encontrar a morte algures numa valeta, no escuro da noite, muito antes de chegar à alvura da imagem da virgem.
Não deixa de ser quase "macabro" este fatalismo a coberto da devoção à virgem de Fátima, que sendo respeitável no plano individual e das razões de cada um, não pode deixar de ser questionado como "fenómeno" antropológico em plena era do conhecimento, que residirá na eterna busca do Homem por algo que o "segure" por entre os tremendos desafios da vida: o encontro, a perda, a busca e a fuga, a alegria, o sofrimento e no fim, a morte, afinal, os ingredientes de que é feita a vida.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (8) - A serra sem Pinheiros

Ao fundo, a Serra do Bussaco.

A Serra mudou muito.
Os mil e um Pinheiros que a espetavam com aquela dignidade de gravatas, sucumbiram a um simples inseto, vulgarizando as encostas  à semeadura caótica de eucaliptos, acácias e  arbustos de ignota e má linhagem.
Aquele verde sombrio, os troncos direitos, escuros, aqueles sussurros do vento pelas copas, o chão em cama de caruma onde te rebolavas ou simplesmente estendias as costas, entregando-te à Terra, contemplando o céu por entre as faúlhas e o estalar das pinhas, já não existe assim pintado. Embrulhou-se numa memória triste, que os dias foram colocando aos cantos.
A serra é agora feita de "s" pequeno porque perdeu o "P" grande dos Pinheiros.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (7) - Varoufakis de patins.


O Ministro das Finanças Grego, Giánis Varoufakis, que deu de comer a muitos comentadores, especialistas, colunistas, jornais e Tv's e povoou sonhos húmidos de muita gente, incluindo aqui em Portugal, lá levou com o par de patins da ordem, bastante previsível,  empurrado para fora das negociações entre a Grécia falida e a Europa de cacete na mão e dedo em riste.
A chamada bofetada da realidade é por vezes bem durinha, por mais (in)justa  seja e prova que a ideologia dividida entre lados e centros, vale o que vale, ou seja, não raras vezes, vale nada.
Não alimenta as pessoas, não lhes melhora a vida como apregoa e serve, quando muito, para massajar alguns egos que, bem nutridos e sem as dificuldades do dia-a-dia, se entretém a dedilhar melodias em violas desafinadas.
O mundo é cão, mas só estes conseguem lamber as suas próprias "partes"...

domingo, 26 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (6) - Ivone e o espelho


Ivone engrossa a lista de mulheres solitárias. Nunca se perdeu de si.
É fácil vê-la junto a uma panela, remexendo a solidão numa paciência de crochet, como se as paredes da sua pequena casa fossem de vidro e a curiosidade fossem as árvores que quase tocam as paredes e as janelas.
A televisão está ao canto, a soltar imagens que se desfazem por si e as que escapam a si mesmas, acabam por se estatelar contra as paredes pouco mais do que vazias daquela casa, porque sem arte, sem fotografias
- De quem?
e Ivone, falando com os chinelos que lhe cobrem os pés, arrastando-os pela carpete já velha, a precisar de outra
- Para mostrar a quem?
nenhum marido, nenhum filho e há dois anos o último gato que entretanto partiu...
...É uma espera, é tanto silêncio, é tanto nada e sorrir é só com o gordo da TV, que dá coisas, que embrulha as sílabas, anda inclinado para trás porque a barriga, diz coisas tontas, a boca rasga-se e num espelho ali prostrado, Ivone percebe que alguém lhe devolve, afinal, um sorriso.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

DIA DA TERRA

Deixo-vos a minha homenagem à nossa casa comum.
Não sou fotógrafo profissional, nem sequer amador, mas sinto as imagens - boas ou más - que vou captando.
Trinta fotografias que retratam a "minha" Terra, os lugares que mais frequento, as paisagens que mais vejo, o céu que mais me cobre.

 






























segunda-feira, 20 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (5) - Ler em cor-de-rosa

Nas estantes dos supermercados, normalmente junto à entrada, estão de olho nos transeuntes que entram e saem, as revistas cor-de-rosa, um verdadeiro arsenal colocado em "formação de ataque", que me leva a pensar que, se são tantas, há um mercado de leitura em Portugal que permite que elas sobrevivam todas e façam sobreviver toda aquela gente que, em maior ou menor grau, defeca, sua, destila, projeta, fama e importância. Não entendo, então, de que se queixa quem afirma que não se lê no país.
É algo que me surpreende, o interesse que se tem (quem o tem) na atualidade da gente que se diz "famosa", nas suas tricas, nas suas vidas de desgraça ou de glamour, chegando por vezes o interesse a roçar  o escatológico, tal é o grau de minúcia que fossa a vida dessas pessoas, não raras vezes no limbo  das suas idas ao WC. É o leitor a fazer uma espécie de redenção própria projetada nas virtudes e pecados alheios que essas revistas colocam ao alcance geral.
Por mim, está bom de ver, essas publicações teriam já todas falido, uma vez que não me move o menor interesse nas vidas e nas mortes daquela gente. Existem, como toda a gente e por mim e para mim, isso basta.
Ao que consta, todos eles nos entram todos os dias pela televisão, rádio, jornais, seja em "comentarismo", em dotes artísticos, seja a apresentar programas da mais variada espécie, sendo que por essa via se transformam por mãos promotoras e pelas próprias em "gurus" da vida moderna.
Prefiro manter-me, por tudo isso,em modo bota de elástico.

domingo, 19 de abril de 2015

CRÓNICAS DAS LAGARTAS DE FERRO - IC da Beira Alta

Comboio Intercidades, com uma locomotiva 1960, estacionado na Pampilhosa. Créditos na foto.

Certo dia, movido pelo gosto que nutro pelos comboios, agarrei no meu carro e fui no encalço de um Intercidades que fazia a viagem entre a Guarda e Lisboa. E decidi que iria vê-lo algures no troço entre o Luso e a Pampilhosa.
Na altura, a Linha da Beira Alta ainda não tinha começado a ser modernizada e, portanto, tudo o que nela circulava era movido a queima de gasóleo.
Normalmente, os Intercidades (IC) daquele trajeto eram formados por uma locomotiva Bombardier, da série 1960 e umas quantas carruagens modernizadas.
Chegado ao local da observação, junto à linha, estacionei o carro e esperei o dito comboio, sabedor - pela análise que havia feito aos horários - que ele haveria de passar dali a alguns minutos, oriundo da Guarda e com a paragem seguinte na Pampilhosa (uns escassos 10 km abaixo), onde uma locomotiva elétrica tomava o lugar da 1960 até Lisboa. E "rezei" para que ele não se atrasasse muito, uma vez que os atrasos eram mais ou menos "normais" na Linha da Beira Alta.
Mas não. O IC da Beira Alta não se atrasou e dali a um ou dois minutos começou a ouvir-se o rugido da composição, rebocada pelo poderosa locomotiva laranja e de frente listrada.
Para meu gáudio e espanto, o comboio vinha a uma velocidade que na altura me pareceu absolutamente "insana", uma vez que ele demorou escassos segundos a passar à minha frente e vi-o desaparecer - literalmente - por entre as árvores que ladeavam a linha. Uma locomotiva e umas cinco carruagens, duas de 1ª classe e três de segunda.
Fiquei em tal "estado de choque" que cheguei a pensar que o comboio ia desgovernado e que estaria eminente um acidente, por uma razão qualquer que eu não conhecia.
Aquela imagem de um comboio a deslizar "louco" sobre carris, ainda por cima numa zona de curva, ficou aos encontrões na minha memória visual por bastante tempo e não descansei até descobrir a que velocidade circularia aquele IC.
Um dia, na estação da Pampilhosa, enchi o peito de ar e perguntei a um maquinista a que velocidade circulavam os Intercidades naquela zona, ao que ele respondeu sem o menor grau de espanto: 120 km/h, que era o máximo da linha naquela zona e o máximo que aquelas locomotivas alcançam.
Fiquei surpreendido, digamos, porque achava que à velocidade a que o comboio ia, parecia mais de 120 km/h, mas quedei-me com a informação, justificando a minha sensação no facto de ter sido a primeira vez que via uma composição a gasóleo (muito embora as locomotivas deste tipo sejam "diesel-elétricas) naquela linha, ainda por cima numa zona de floresta, facto que faz aumentar a sensação da velocidade das composições relativamente aos "objetos" parados junto à linha.
Mas juro que, durante uma boa dose de tempo, até esclarecer a coisa, os Intercidades da Guarda e as locomotivas 1960 atingiam uns bons 150 km/h!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (4) - Do lado de fora


Não aprecio as coisas que aquele tipo escreve. Mil e uma coisas amontoadas e sem uma ordem que por vezes as acalme.
Se calhar são guerras dele que ele torna públicas, quase todas elas não abonam grande coisa para ele próprio, embora ele ache que abonam.
Não percebe o essencial - "o essencial é invisível aos olhos" - e vai por ali, escrevendo coisas avulsas, complicadas de entender, fora das fórmulas, desalinhadas, de interesse relativo, não raras vezes sem interesse... 
Não percebe que só se sabe o que se quer dizer quando já se disse. E que não existem histórias e o que existe é quem as conta.
Teima, insiste, persiste, subsiste, em riste e não desiste. E por vezes é triste.
E amargo. E azedo. E irónico. E sarcástico.
Não está do lado de fora.
©AL.abr2015 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (3) - Uma chapada do quotidiano


R. está muito calado, os olhos parados alisando paredes, ou esgueirando-se pela janela, desaparecendo para lá da linha do horizonte que faz acabar o mar.
Revela um olhar vazio, cheio de silêncio, repleto de interrogações.
R. pouco reage. Abana a cabeça em substituição das palavras que lhe parecem presas na garganta, algumas embrulhadas em fios de lágrimas, presas por ténues barbantes.
Uma voz, sentada a uma mesa, disse que ao chegar a casa, R. permanece sozinho. Entregue a si mesmo, em espera.
A mãe ausente onde não se sabe e no entanto, num cais ali perto, junto ao mar, uma mulher sentada, as costas curvadas, o peso do seu mundo e duas mãos empunhando uma pequena cana de pesca, catando pequenos peixes das águas mansas, acautelando pelo menos o jantar de R. que em casa espera.
Percebo o recado com um embrulho de angústia. Uma chapada tremenda.
Relativizo de imediato os meus problemas que não passam pelo cais, pela cana de pesca, pelos pequenos peixes que não saltam para o balde do jantar.
Fica o meu olhar parado, a alisar as minhas paredes, preso por elas, as minhas mãos enxotando meu o sono como se ele uma mosca.
O zumbido da mosca é o zumbido da fome de R. A fome que o faz calado, de olhos parados alisando paredes, ou esgueirando-se pela janela, desaparecendo para lá da linha do horizonte que faz acabar o mar, onde depois mergulha pelos pequenos peixes e nada por um abraço da sua mãe.

Nota: O "Escrevinhatório" de hoje relata um facto verídico. 

©AL.abr2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

ESCREVINHATÓRIO (2) - Meio café




Hoje de manhã, na televisão muda, empurrada para o fundo da sala, pessoas discutiam as virtudes e não virtudes do café.
Não lhes ouvia palavra.
Alguém em prudência retirou o som ao aparelho. Supus, portanto, acesa discussão, ou então aquelas conversas moles, quase gelatinosas, boas para encher o habitual horror ao vazio que nos preenche a todos.
Não soube um átomo sobre as conclusões da conversa. E talvez nem fosse preciso.
Sugeria apenas, de forma salomónica, que para evitar mau ambiente entre aquela gente, todos passassem a beber apenas meia chávena de café, todos embrulhados na certeza de que a metade que ficaria por beber, seria a metade que, alegadamente, faz mal à saúde.

©AL.abr2015