domingo, 22 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO, DA CALMA E DO IVO [... dia 0]

Foto: Rui Sousa

Deste dia ressalta muita coisa. A memória tratará de cumprir o seu desígnio.
O pânico, aqui omnipresente durante dias, foi sendo pacientemente anulado com as voltas do tempo.
Até que se desfez num fumo incolor e inodoro, acabando por se misturar com o ar que se respira.
Quando me sentei numa cadeira para assinar e dedicar livros, já depois da apresentação, a dada altura levanto a cabeça e estava junto a mim um senhor, já com uns 70 ou mais anos - pelo menos de aparência - dizendo-me algo timidamente que queria adquirir um livro.
Terei mal disfarçado algum espanto, na medida em que o senhor - tomado pelo seu aspeto exterior - não dava mostras de ser leitor, se é que isso é catalogável desta forma tão seca, digamos.
Não havia trocos. Pousou o livro sobre a mesa e disse-me calmamente
- Vou ali ao café trocar a nota!
Quando voltou, perguntei-lhe o nome:
- Ivo Vieira.
Dediquei-lhe o livro com a simpatia que consegui.
O senhor olhou-me por breves instantes e, em poucos segundos, pegou no livro e afastou-se da mesma discreta forma com que apareceu, sendo que lhe notei um sorriso sincero por levar as 454 páginas do meu livro, assinado e dedicado pelo seu autor.
Como escritor sou nada ou  quase, mas só por isto já valeu a pena ter dedicado tantas, mas tantas horas de mim para aqui chegar.
Tudo poderia ter corrido mal, mas a simples "aparição" deste homem de rugas, pele morena, barba grisalha, uma camisa avermelhada, estatura médio-baixa, mãos quase rudes hesitando entre os bolsos e os gestos e uma voz timbrada pelo sotaque indígena, seria suficiente para que tudo tivesse valido a pena.
Provavelmente não o vou esquecer, Ivo!

sábado, 21 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -1]


Reservei umas duas horas para preparar a apresentação.
Notas sobre o que não pode ser esquecido de ser dito.
A memória, sendo de pedra, é por vezes de pedra mole, umas argilas amareladas que se desfazem quase por fricção de dedos... 
Na minha aldeia havia dois ou três barreiros. Não poucas vezes para lá ia, catando barro para depois brincar. Ainda hoje existe a "Rua da Barreira", pejada de casas e o barro soterrado pelo amargo do betão...
A falta de tecnologias aguçava o engenho e as mãos empastavam-se daquele barro primitivo, de onde se experimentavam objetos. Eram uns "emojis" feitos por mim, pelos miúdos da minha geração. E raismaparta se não havia emoção à brava naquilo.
Em vez de mandarmos uns aos outros por mensagem eletrónica, como agora fazemos, mandávamos uns aos outros... mesmo. Fisicamente. Algumas vezes à bruta.
Eramos felizes e se calhar não o sabíamos!
[...continua]

sexta-feira, 20 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -2]

Hoje não há "Diário".
Voltou o pânico.
Escapam-se-me as palavras. Estão a esconder-se para domingo.
Vão num saco, a reboque, aos tombos na mala do carro, outras nos bolsos e algumas vão perder-se pelas ruas da urbe antes de acertar a geografia onde estão os microfones, esses gigantes da projeção que me tornam encolhido como um trapo lavado no programa errado das máquinas, depois de mil voltas na cuba de inox que é o tempo.
Hoje não há diário, porque...
...Só há pânico!
[...continua]

quinta-feira, 19 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -3]


Se calhar chamar pânico à situação é exagerado.
É daquelas palavras cujo peso se vai aligeirando à medida que se percebe que não há bichos papões por baixo das mesas, prontos a ratar-nos os dedos dos pés.
Hoje já comecei arrumar na cabeça algumas coisas que terei de dizer no domingo, fundamentais para quem me vai escutar perceber como cheguei às 450 páginas do livro e ao que elas transportam para quem as lê.
Provavelmente é um mecanismo normal de segurança, uma espécie de base cosmética para disfarçar a nervoseira tão predestinada a sugerir noções caóticas.
Fora isso, Kafka ronda a situação, através da (ainda) pouca certeza acerca do horário, num daqueles processos em que a paciência é uma espécie de manteiga dura que é complicado espalhar sobre a superfície mole do pão, sobretudo quando a fome tende a derretê-la e não a manteiga, como se desejaria.


Voltando a Kafka, esse franz...ino orelhudo: "A literatura é sempre uma expedição à verdade!"
[...continua]

quarta-feira, 18 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -4]

Querido Diário!
Hoje fui ver o palco onde vou apresentar o meu livro. 
À medida que aproximei do local, um nervoso miudinho fez-me cócegas pelo corpo, com especial incidência na barriga, esse meio termo físico onde tantas coisas se consumam em diversos estados de matéria, quase sempre sem o respetivo controle e autorização ad hoc.
Contei as cadeiras, os espaços para pessoas em pé, percebi a ausência de paredes, tão do agrado da leveza das correntes de ar que levam e trazem o tudo e o nada na mesma viagem de sopros, auscultei as possibilidades para a consumação de uma eventual fuga, buracos onde me esconder, no caso de me perder no labirinto de que é feita a ansiedade de ver tantas caras a olhar-me e à espera de ouvir de mim algo que valha a pena e não provoque enfado ou sono.
[...continua]

terça-feira, 17 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -5]


Dormi pouco e mal.
Andavam coisas a mudar de hemisfério no meu pobre cérebro.
Frases feitas de um lado que se desarrumavam quando passavam para o outro e portanto, lá estava a congeminação dos hemisférios a pontapear o sono.
Por fim e já rendido à evidência da fuga impossível, fechei para balanço. Joguei as chaves para longe e jurei não acender a luz.
De manhã fui ao Funchal. 
Para evitar maiores palpitações, passei longe do "local onde se vai dar o crime". Convém manter a distância higiénica à coisa para que a emoção não se gaste toda de uma vez, que os preços da emoção estão pela hora da morte.
Mas amanhã de tarde, lá irei para reconhecimento da área a perceber melhor onde me vou meter.
Pelo sim pelo não, tratarei de anotar métodos caseiros de contenção dos nervos e outras maleitas que se encavalitam numa pirâmide quadrangular oblíqua e que não raras vezes solicitam corridas urgentes da base para o topo, sem especial preocupação com a obliquidade do eixo.
[continua...] 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -6]

A 22 de maio, daqui a 6 dias, vou apresentar o meu livro "Memória de Pedra".
A coisa vai dar-se frente a público, numa Feira do  Livro e, provavelmente, com microfones.
Tenho absoluto pavor de microfones. São criaturas cabeçudas que fazem algo tão perigoso como projetar a minha voz e as minhas frases. Parecem olhar-me inexpressivos, ameaçando-me se não falar para eles. Uma marretada na cabeça, um choque elétrico, uma pantufada num olho, não sei... Mas tenho de falar.
Posto isto, juntam-se dois males:
1 - A minha (muito) pouca propensão para falar em público;
2 - O aumento da audibilidade dessa falta de propensão.
É a velha teoria do mal que nunca vem só ou da miséria que adora companhia.
Não digo que não venha a conseguir articular palavras, frases, coisas com conteúdo ou interesse, porque se calhar até vou conseguir, por mais nós que se me estejam a dar nos intestinos, o local onde o pânico se fabrica e se reproduz. 
Portanto o problema é por dentro, por mais que por fora pareça tranquilo e senhor dos ares circundantes.
Os sorrisos vão sair amarelos, disfarçados, que mal taparão o terror por trás de tudo. As frases e as palavras vão parecer trancadas em caixas e terei de as abrir em frações de segundo para que as liberte naquela solenidade com que se está nas cerimónias.
Eu não gosto muito de falar. 
Quem me conhece sabe que sou feito muito, mas mesmo muito mais de silêncio. Por isso, estou perante um desafio tremendo, bem mais arriscado do que ter escrito ou escrever, dado a escrita ser um ato solitário e silencioso... 
[continua...]

terça-feira, 10 de maio de 2016

ESCREVINHATÓRIO [26] - O TEOR

Sabes qual é o teor do nojo?
Não sabes. Não é mensurável, o que em si já te deveria fazer pensar. Mas não.
O teu nariz bicudo tapa-te o horizonte e só permite que te vejas em parte ao teu espelho mentiroso.
Vens de uma espécie de Feira Popular onde as vaidades se misturam como o odor a pipocas e entremeada grelhada. Sem um módico de barreira ou limite de segurança, ou cuidado de humildade e prudência.
Pouco me importa que estejas, ainda menos me importa do que hoje és e para onde vais. Lembras-me aqueles cães, coitados, que orbitam em volta da sua cauda, afirmando latindo a imensidão do seu mundo e das suas capacidades enquanto se lambuzam com as suas línguas de metro penduradas lateralmente da boca babada.
Vou desaparecer de ti naquele nevoeiro feliz de que é feita a limpeza a fundo, aquela que nunca serás capaz de fazer porque as tuas vassouras convocam o lixo em vez de o arredar.
O teu teor de ti é demasiado elevado para escalas de medição. Usa-lo com aquela parcimónia dos deserdados que desembrulham papeis e selos em busca do crédito que ninguém lhes dá. Desconheces o nojo de que é feito o teu tempo, não tanto o nojo da abjeção mas o nojo de estares a olhar-te de um pedestal para onde voaste numa pressa sem degraus, anunciada naquele erro de palavras escolhidas sem dedos, mas raspadas com as unhas de que se pinta a tua vaidade digital.
Estás e não estás, apareces e desapareces como se fosses propriedade suprema do domínio do tempo, julgando-te regulador das essências e no entanto, apenas sonhos e nada de realidades. Pensas-te nevoeiro onde te escondes e donde voltas nos dedicados vapores dos desejos, vapores secos que nem os dedos riscam nos vidros e portanto nem nevoeiros e apenas umas securas arrogadas que apenas tu vês e anuncias por trombetas tão mudas quanto presumidas.
Perdi-te, ou perdeste-te de mim mas, sinceramente, a felicidade é uma porta em cujo limbo não conto que estejas e nenhuma das letras do teu nome faz grande falta ao conceito.

domingo, 8 de maio de 2016

A ACADÉMICA E COIMBRA

A Académica desceu de divisão.
A coisa já se adivinhava, mas há sempre aquela fina lâmina de esperança de que isso não aconteça, não tanto pelo simples jogar à bola, mas por obra e graça de acasos e golpes de sorte.
Mas aconteceu.
A descida da Académica é mais um sinal de que a minha cidade, Coimbra, continua a sua caminhada em direção à irrelevância.
É uma cidade que vive das memórias, do passado, olha pouco para o presente e quase nada para o futuro. De 2001 a 2011 perdeu 5 mil habitantes, continua a ser semeada de rotundas, pequenos remendos que não disfarçam uma decadência que já leva décadas.
Nem mesmo a recente inauguração do Convento de S. Francisco dizem, o segundo maior centro cultural nacional, depois do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, poderá reverter este trilho enquanto quem nela decide não o fizer com orgulho, audácia e visão de futuro, respeitando o passado mas não se deixando manietar por ele, como acontece sucessivamente desde há anos...
Vista de longe, a cidade é de uma beleza ímpar. 
Entrando nela, percebem-se com alguma dor as marcas do abandono, da decadência, do seu atrofiamento, da sua limitação atávica para se reinventar e recolocar numa posição mais digna.
A Académica, através do seu futebol, tem sido, por assim dizer, um espelho do que é a cidade isto é, ninguém lhe quer mal mas, a começar pelos seus mandantes, ninguém faz nada para que deixe de ser assim, nesta espécie de fatalismo e a livre do tremendo destino que é a irrelevância.
Sorri-se para a Académica e para Coimbra com aquele tão mau sintoma da pena que se tem para com os"coitados", quando colocados perante alguma coisa ou alguém que tem o destino traçado.


Para uma cidade tão senhora da sua história, das suas tradições, do seu nariz e das suas jóias, é apenas triste e lamentável.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

LEITURAS - "Viagem ao país da manhã"


Mais um livro terminado.
"Viagem ao país da manhã", de Hermann Hesse, é um pequeno livro (87 páginas) que se lê de uma penada.
Está escrito de uma forma interessante, ali na margem do alucinado e do surreal, mas aqui e ali bastante poético e igualmente revelador de alguns sinais que acompanham a vida humana, entre o liso e a psique, não raras vezes tão de mãos dadas.
Não foi nem de perto nem de longe um dos melhores que li, mas, como costumo dizer, foi simpático e muito longe de ser tempo deitado fora.