segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

"A MÃO DO DIABO"

Um dos livros que li durante as férias foi "A mão do Diabo", de José Rodrigues dos Santos (JRS).
Nunca tinha lido nada escrito por ele e que os "especialistas" chamam "romance".
Li-o em tempo recorde. 580 páginas em escassos 4 dias.
Mas o facto de o ter lido quase de um fôlego, ao contrário do que se possa pensar, não foi sinal de ter ficado (positivamente) impressionado.
O livro prende - prendeu-me - porque o seu enquadramento é atual e radica na "crise" que atravessamos, explicando alguma da sua origem e fatores de atuação sobre a vida presente. Por aí JRS manipula bem a coisa e consegue os seus intentos.
Há lá um "romance" semi-intrincado, primeiro entre um português e uma espanhola e, latente, mas demasiado previsível, entre o mesmo português e uma funcinária de um lar de idosos em... Coimbra. E, na minha pessoal análise, peca por alguns "erros e saltos" que talvez carecessem de um pouco mais de "arte" no seu trato
Sempre que leio um livro, estou sempre acompanhado de um lápis onde faço sublinhados e, sempre que a leitura o justifica, tomo notas de leitura.
Por exemplo, no livro que li antes deste sobre o qual aqui me detenho - "Manhã submersa" de Vergílio Ferreira, sublinhei e tomei muitas notas porque há ali matéria em termos, isto é, frase cuidada, eufemismo, metáfora e muita arte no uso das palavras e na construção das frases.
Nas quase 600 páginas de "A Mão do Diabo", não fiz um sublinhado ou tirei uma nota lateral.
JRS pode ser um escritor no sentido em que exerce o ato da escrita. Arruma as palavras como se sente à vontade e/ou com o propósito que pretende mas, de facto e tomando apenas a leitura deste livro em apreço, não poderá ser chamado de "escritor" no sentido em que se chama a um Lobo Antunes, Saramago, Pessoa, Vergílio Ferreira, Cardoso Pires...
A escrita de JRS é direta. Como costumo dizer, "de carregar pela boca", como algumas espingardas...
O tiro, a ajuizar pela minha própria reação face à sua leitura, foi absolutamente certeiro.
Mas só isso.
E continuando com a sintomatologia... não fiquei com vontade de ler outros "romances" seus.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

DOS DIAS FORA DO CALHAU - Pausa

 Foto: Filipe Jorge - Livro: "Coimbra vista do céu".

Seguem-se umas semanas (ainda) mais erráticas no Calhau com Olhos, de pausa provavelmente total.
Obrigado a todos os que demandam este blogue e vêem as fotografias que faço e fazem o favor de ler as coisas que escrevo.

Até breve.

domingo, 20 de Julho de 2014

CRÓNICA TATUADA

- Olhe lá, eu  nunca lhe disse que me tatuasse os piolhos que tive quando andava na escola, você esticou-se de mais!
e por isso não lhe pagarei porque os piolhos nada tem a ver com o nome dos namorados, dos rapazes, rapazolas, homens e alguns "coisos", alguns eram chatos, sim, lavavam-se mal e davam comichão, mas pilhos não
- Apague-mos!
mas o que me lembro bem é dos centímetros de comprimento das respetivas almas, o correspondente diâmetro, as acrobacias horizontais, o experimentalismo das posições, toda eu me torcia e a dada altura os pés onde a cabeça e a cabeça onde os pés
- O que sabia esse tal de Kamasutra?
o raio que o parta a todos que são todos iguais e são as minhas curvas, senhor, as minhas curvas que eles querem
- Quais curvas menina? Você é mais direita que uma régua!
e deixei a virgindade sozinha numa canoa a remos, pelo rio fora
- Ou seria o mar?
e desconheço se ela sabe nadar por via do naufrágio possível que há muitos penedos a espreitar por fora da água e a cegueira é tanta, derivada do choro, que ela pode não ver e afunda-se
- A menina viu o Titanic?
mas com um pouco de sorte encontra um marinheiro moreno, faminto que a resgate e 
- Esteja calado e faça o que lhe pedi que quero a minha vida escrita no meu corpo.
quer dizer, não é escrita, é tatuada, senhor, a minha pele é de sardas, tem uma cor que nem é carne nem é peixe, quer dizer é carne por que não sou peixe nem sequer de signo
- Mas os piolhos, menina, não foram parte da sua vida? Lembra-se da coceira na cabeça?
é feia e quero disfarçá-la e com rosas também, rosas vermelhas, cor de sangue
- Cor da virgindade, não é menina!
cor do sol quando se põe
- Você é um estúpido mal educado!
sobre o mar e se reflete nos meus olhos cheios de lágrimas que me farto de chorar senhor, aquele David ficou-me preso nas goelas, na garganta, não há dia que não me lembre dele, é como se fosse daquele musgo agarradinho ao meu corpo, o meu corpo feito tronco de árvore e toda eu abanava
- Da ventania, menina?
e nem era preciso vento que só o respirar dele me atirava ao chão e me fornecia de oxigénia para a vida
- Qual vento, qual quê senhor! O senhor não é nada romântico. Cale-se e tatue-me!
e quantas vezes me erguia depois, aturdida de sentimentos, preenchida e um dia aquele estupor desapareceu de mim, nunca mais o vi, nem debaixo da cama, nem encarnado num candeeiro de rua junto à minha casa que acendia e desligava cada vez que me aproximava dele e pensava eu que era ela a piscar-me o  olho, convidando-me para aquelas sessões de desgraça senhor
- Tatue-me um candeeiro, se faz favor, senhor! Eu pago!
e o que faço agora sem ele, caramba, que devia tê-lo amarrado com uma corda feita de lençóis, feita da roupa que eu tirava com o fito da possessão e nunca mais o vi, foi-se embora, desapareceu na curva da minha anca, no refego do meu seio direito, mas sumiu-se
- Procure no esquerdo menina, quem sabe se...
nesse não que ele era às direitas
- Desenhe-me aí uma estrada, senhor e assim no fim coloque a figura de um homem, como se fosse ele e por trás um sol vermelho e grande.
que o filho da mãe levou-me com ele e ainda hoje me procuro, eu que agora já nem sei se era David se Rafael, que nunca fui boa a fixar nomes nem caras.

DOS DIAS NO CALHAU (107) - Andanças andadas (II)