sábado, 29 de agosto de 2015

DIAS ANDADOS (01) Notas de viagem - Penacova

Penacova é uma muito bela vila. Está "encavalitada" num morro que surge no fundo de um vale e que, algo surpreendentemente, se revela sobranceiro ao rio Mondego.
São muitos os ângulos por onde pode e deve ser observada. Fora e dentro de si mesma.
É fácil escrever que é uma terra com um enorme potencial turístico, porque a paisagem é quase sempre de espanto e nenhuma perspetiva é descartável. Contudo, como tantas outras por esse país fora, está subaproveitada. Se por um lado isso é bom, porque foge do conceito de lugar cheio de gente, é menos bom, sobretudo para os seus habitantes que não tem na sua terra uma fonte de receitas que estanque a debandada dos seus para outras terras. Penacova tem perdido população e apesar de estar relativamente perto do denominado "litoral" e dos seus eixos de desenvolvimento, não conheceu desaperto económico que a torne atrativa. 
Para os que preferem ver a natureza em completa união com as pessoas e salvo um ou outro pecado, Penacova cumpre bem esse desiderato.

Como já referi, dentro da vila e apesar da sua acanhada dimensão, é possível espreitar outros telhados, o inclinado do morro, as serras circundantes, o casario do centro histórico que, não sendo "histórico" como outras vilas, apresenta um recorte íntimo, com as casas encavalitadas sobre as estreitas ruas, onde outrora, longe do vislumbre das redes sociais, era fácil as vizinhas e vizinhos perorarem sobre as suas vidas e as alheias.

O rio Mondego passa-lhe aos pés e o vale vai pelos olhos adiante. A praia fluvial exibe orgulho e, ao fundo, os 1200 metros da Serra da Lousã espreitam.

 A torre da Igreja Matriz da vila. Simples e com uma pequena cúpula, algo rara no edificado religioso da zona.

Cá está o morro onde a vila se encavalita. No fim dele, o Hotel de Penacova, fechado há vários anos porque, quer se goste ou deteste, não há (como nunca houve, de resto) estratégia para o turismo. A beleza das paisagens parece tolher as ideias aos decisores.

 A vila, como o Mondego aos pés.

 Encavalitada no morro, ao fundo do vale, embrulhada nos tons de verde, vigiada pela penedia.

De dia...
 
...de noite.

 A vila, à noite.

O centro da vila foi completamente remodelado há cerca de 5 anos. Impera o granito (polémico porque não é autóctone...), a arrumação, a luz, mas falta o elemento essencial. Pessoas, gente. 
Uma espinha na garganta do poder. A estátua de António José de Almeida permanece esfíngica, silenciosa, observando os demasiados nadas daquela praça.

O "Mirante Emígdio da Silva", à noite, de onde se mira o breu da floresta, pontilhado pelas luzes dos lugares.

 Vista noturna da vila, obtida a partir da Cheira, localidade "colada" a Penacova.

Para quem não conhece, Penacova situa-se a nordeste de Coimbra, de onde dista escassos 25 km. Pode ser acedida, a partir daquela cidade pelo IP3, mais rapidamente mas sem a beleza da outra alternativa, a algo pomposamente designada "Estrada Verde" que segue rio Mondego acima, desde a entrada de Coimbra, em curvas e contra-curvas e permanentemente rodeada de verde, de aldeias encavalitadas nas rudes encostas e pelo silêncio das águas do rio.
Penacova (concelho e vila) valem bem uma visita, quanto mais não seja porque mantêm uma invejável presença natural, paisagens tão diferentes quanto variadas e ainda em estado praticamente bruto.

domingo, 19 de julho de 2015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

PENACOVA 2015


17 de julho é o feriado municipal de Penacova.
Tenho demasiadas ligações àquela terra para ser insuspeito relativamente ao que escrevo sobre ela, mas isso não me impede de o fazer e, até, dever fazer!
Apesar de estar encostada a Coimbra - no que isso tem de bom e mau - a terra tem definhado, fruto da debandada de muitos dos seus, mas também fruto de sucessivas e incompetentes gestões camarárias que se tem sucedido umas às outras, ao longo de muitos anos.
Uma terra manifestamente pobre, sem tecido industrial ou comercial, "sustentada" pela floresta e pouco mais,  mas que é disputada politicamente de uma forma aberrante, exagerada, no limite do admissível, a soldo da marcação de pequenos quintais políticos, uma plataforma de vaidades serôdias que, salvaguardadas as exceções públicas e notórias, provoca nas pessoas um sentimento de repulsa e afastamento relativamente à vida cívica e política que, por arrasto, afasta muitos de tudo e... de todos.
Em 2009, um partido diferente daquele que detinha o poder já há mais de 20 anos logrou vencer as autárquicas. Parecia sangue novo, porque eram políticos novos, mais cultos, mais viajados, melhor preparados, digamos, com novas ideias e apregoadas práticas.
Volvidos 6 anos sobre essa (esperada) mudança, Penacova mantém-se afinal fiel ao velho paradigma e àquilo que sempre foi, por mais que por lá se queira fazer crer que não é e que não está.
Há mais festas, há mais propaganda, mais "jeito" por parte do poder para se auto-promover, tudo mais profissional e pensado, mas no essencial, a terra continua pobre, parada e a vila é hoje um tenebroso deserto de gente, fruto de obras que a tornaram de facto mais atraente mas que carecem do elemento fundamental para se justificarem minimamente úteis. Pessoas!
Penacova tem belezas paisagísticas ímpares mas não tem - como nunca teve - uma ideia sólida e sustentada para o turismo. O Hotel fechou, restaurantes fecharam, o comércio - pouco - vive de corda ao pescoço e apesar de ações pontuais relativamente bem sucedidas para o manter a respirar, inseridas num estilo demasiado colado ao poder político e por ele "marcado" na sua marca de propaganda, subsiste no limbo do precipício, no finíssimo limite do deve e haver.
A ideia que fica da classe política que tem nas mãos a orientação e destino de Penacova é que o seu serviço é prestado, em primeiro lugar, ao partido político que a sustenta - a todo o custo, argumento e ação - e só depois, no plano que se segue, quase por dever de obrigação, às pessoas que habitam aquela terra.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A TEIMOSIA E O DESAFIO


A Teimosia é ter um livro a aguardar edição e estar já
      entusiasmado
a escrever o próximo, num formato bastante diferente e sobre o qual, para já, não "direi" uma letra, mas que já tem título (quase) definitivo...
Isto tudo para dizer a quem me lê, aqui, que continuo com a mania de escrever à minha maneira, o mais possível fora do que está "estabelecido" e por isso, contem que enquanto o conseguir, não escreverei as coisas de forma lisa, isto é, procurarei sempre um certo sobressalto, encarado não numa perspetiva de provocar medo ou susto
      embora não descarte qualquer dessas consequências no potencial leitor
mas que o leve, entre muitas sensações, a apreceber-se da natureza elegante
     ou  não
das frases e da construção do texto, da sua carga dramática, do seu humor, do seu realismo, da sua ilusão e que, em desejo oculto, se perceba e se reveja ali, por mais intrincados que possam ser alguns recantos de si próprio e do que lê.
É um desafio que considero duro, uma vez que exige muita
      mas mesmo muita
atenção e dedicação, a busca permanente das palavras mais adequadas, o recuar e o avançar, o risco de perder o controle da situação, muito embora os livros tendam muitas vezes a escrever-se a si mesmos, por ganharem vida e identidade, correndo o autor aventuras inusitadas para não ser colocado de parte, alheio ao trânsito que se estabelece.
Em última análise, cá estarei para dar o corpo às balas quando outras luzes e outros olhos iluminarem e lerem o que agora trago nos braços e na cabeça.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

MEMÓRIA DE PEDRA - LIVRO

O livro de que sou autor e que, em breve o espero, verá a luz do dia, está terminado.
Para seguir de forma mais direta o seu próximo percurso, existe uma página de Facebook, a que se pode aceder e fazer o "gosto" da praxe!
Deixo aqui a apresentação que lá escrevi.


«Memória de Pedra" é o título de um livro de que sou o autor e que, brevemente o espero, estará publicado.
É um livro que percorre um período de tempo algo longo, isto é, desde que me lembro de ser gente até ao presente, numa viagem já com mais de 40 anos.
Pode afirmar-se, por isso, que tem muito de autobiográfico, mas ele revela, também, o modo por vezes alucinado com que fui encarando e construindo a minha passagem pelos dias, dando primazia larga ao olhar e à reflexão sobre o que os sentidos me foram transmitindo.
O livro reúne 160 textos (entre pequenos, médios e grandes) que são retratos de um tempo que me marcou, algumas imagens que nunca se apagaram e sobre as quais escrevi muitos anos depois. Não é uma biografia, nem tão pouco exaustiva, nem nada que com isso se pareça.
Alguns deles são incursões na atualidade, à qual não se escapa porque é ela que nos torna (também) no que somos.
Outros, ainda, são absolutos quase delírios que assentam - lá está - na observação, deslizam sem travão para descrições alucinadas, irónicas, sarcásticas, humoradas, melancólicas, dramáticas, tristes, solitárias... sobre coisas, pessoas ou situações que se foram atravessando nos meus passos e no meu olhar, quase sempre sem aviso ou pedido de licença. Os que me conhecem sabem que sou homem de poucas palavras, reservado... De certa forma escondo-me, reservo-me, mas observo, escuto e, em silêncio, escrevo.
Não contem com um livro fácil de ler. Como costumo dizer, "não é de carregar pela boca".A minha forma de escrita dá luta, requer entrega do leitor e, provavelmente, quem não se “preparar” terá a natural tentação de desistir, mandando-me pentear símios porque não percebe o que e como escrevo. É um risco assumido!
Muito do que escrevi e que julgo valer a pena mostrar a outros olhos e a outras atenções, está aqui, no “Memória de Pedra”.
Mas há mais. Haverá mais.
Assim não me falhe a vontade de escrever.»

António Luís
(Autor)

sábado, 27 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (16) - A Luz


Que luz é aquela que destapa as mantas do dia?
Por onde andam os teus passos que de silêncio não os sinto, nem aos pés que os calçam na penumbra do ar respirado?
Que mar é aquele, cinzento, a dizer-me coisas por entre a espuma que acaricia as rochas, insistente, repetitivo e teimoso?
Que luz é aquela que aconchega as mantas da noite?

sexta-feira, 26 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (15) - O que sucede...

...é que a escrita tem acontecido, mas em forma de projeto de livro, em formato isolado e longe de olhos que não sejam os do seu autor.
Isto é, está (finalmente) o livro "Memória de Pedra" encaminhado para publicação e trabalho já noutro projeto, provavelmente outro livro, num formato diferente do Memória de Pedra.
A pergunta pode surgir rápida:
- Mas ainda não publicaste o primeiro já estás a tratar de outro?
Correto. Por enquanto ainda há entusiasmo e a receita é seguir de braço dado com ele.
Seja como for, não almejo deslumbres de maior nem me coloco em biquinhos de pés por via disso, arvorando-me em algo que não sou.
Navegação à vista, esperança em doses adaptadas ao contexto e à realidade.

domingo, 14 de junho de 2015

DOS DIAS NO CALHAU (120)

Mais algumas fotografias obtidas neste "exílio de coisas".

A 3ª maior cidade flutuante do mundo. "Anthem of the seas".

Amanhecer.


O Cristo Rei sob nuvens escuras.

Santa Cruz, à noite.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

ESCREVINHATÓRIO (14) - Duas notas


Nota 1 - Causa-me perplexidade quanto baste este afã de notícias e de reações às movimentações da bola. Quanto baste porque é preciso dizer coisas, é preciso que aconteçam coisas para que o falatório siga o seu caminho e as opiniões saiam pelas bocas cheias de revolta, a revolta que não sai, por exemplo, quando os governos nos apertam ao tutano da paciência. Uma revolta que se consuma e projeta para além do mundo imediato de cada um, demasiado absorvente e, portanto, esta espécie de "destilaria coletiva" só pode ser, de facto, um serviço público de dimensão meta-social que muito boa gente usa para manter os seus níveis de sanidade, por mais insano que tudo isto pareça.
É preciso relativizar as coisas e, ao mesmo tempo, estabelecer novos ângulos para a sobrevivência.

Nota 2 - Fiz hoje cumprir um sonho a dois alunos, rapazes com características especiais que, vivendo numa ilha e a menos de meia dúzia de quilómetros do Aeroporto, nunca o haviam visitado e muito menos terem estado junto a um avião.
Várias vezes dei por mim a olhar para eles e para as suas expressões, o quanto se sentiram cidadãos do mundo, entre tantas centenas de cidadãos do mundo que estavam naquele edifício, eles que vivem mais ou menos emparedados entre o local onde moram, a escola e, de quando em quando, umas incursões à cidade capital da região.
Vi um brilho nos seus olhos que suplantou, de longe, qualquer alegria que, por exemplo, o clube de futebol com que simpatizo me brindasse ao sagrar-se campeão. Um voo alto para eles, mesmo não tendo tirado os seus pés de solo firme. Mas vi-os voar!
Não troco uma experiência absolutamente humana por nenhuma algazarra, vozearia ou "alegria" que o futebol que queira dispensar.

domingo, 31 de maio de 2015

ESCREVINHATÓRIO (13) - Maio



Não há de ir o maio embora sem te dizer
que no seu céu arderam estios
longe que esteve o agouro molhado de chover
arredadas que andaram as trovoadas
no maio maduro de poucos frutos.
tempo de teus mil olhares absolutos.

Não há de ir o maio embora e te digo
por entre as cores e as flores dos montes
que entre tantas palavras mendigo
que do tanto calor se calaram fontes
penduradas no sol que trazes contigo.

Não há de ir embora o maio a ver-te pelas costas
tu que lhe lanças os teus olhos de espanto
e nos braços tão cheios como gostas
a soldo da tua alma e encanto
não há de ir o maio embora pelas portas
e te apertar o coração afagado num manto.

©AL.2015