Um dia, sem razão aparente, lembrei-me desta bebida e decidi que haveria de escrever um texto à volta dela... O resultado foi este.
***
Zé Melro é franzino de estatura e
há muito que a elegância o abandonou, como fez quase toda a gente à sua
volta. Remete-se por agora às suas dimensões abonadas no sentido das
larguras, que embrulha em roupa cinzenta e algo ausente de cuidados, em
cujos brilhos apenas encontram reflexo nos olhos quase perdidos numa
cara de lua cheia. Cara de cem rugas e cabelo grisalho sem linhas.
Quando
vem aqui à taberna, senta-se sempre no mesmo banco e se lá está alguém,
já sabe que tem de ceder o lugar... Encosta a barriga ao balcão e
repete a solenidade:
"- Bota aí um escarchado!"
Dou
meia volta e do armário do canto tiro uma velha bota de louça caldense e
atiro-lhe para dentro a dose de anis costumeira que o mantém nos níveis
que a sua precária dignidade precisa.
O
resto da clientela já lhe conhece os estribilhos, mas gosta sempre de o
ouvir porque a entoação das suas palavras desenha o curso dos ventos,
ainda para mais quando o escarchado lhe entra no circuito sanguíneo e
lhe abona o palavreado com o travo da erva doce. E espera que ele
fale...
Zé Melro é um
homem colocado no interior do seu tempo e de quando em quando, abre uma
porta por onde se esgueira o seu pensamento e por isso, quase nunca lhe
falta a clarividência da simplicidade. Os copitos a mais, em casa,
preenchem-lhe a viuvez, pousando sobre a almofada da sua cama o vulto da
sua Madalena.
- "Que já lá está!"
Apesar da ter apenas a 4ª classe, lê escorreito e tudo o que apanha. E pensa firme.
- "Que já lá está!"
Apesar da ter apenas a 4ª classe, lê escorreito e tudo o que apanha. E pensa firme.
"-
É preciso ter cuidado, sabem?! Isto está perigoso. Anda aí uma
rapaziada com umas ideias malucas e outra sem ideias. Nem se sabe o que é
pior! Sobem-lhe à cabeça as importâncias e transferem o tampo das
almofadadas cadeiras, ajustadas aos seus importantes rabos, para perto
das cabeças e depois começam a pensar que são os mentores de todas as
coisas. Substituem-se a Deus mas ignoram princípios e fins. Sou quase
analfabeto mas não sou estúpido. O povo está fraco, só pensa nas suas
saídas e há sempre gente má no limbo das portas. Esticam as orelhas e
vão por ali fora a tratar das suas vidas, destratando pelo caminho a dos
mesmos desgraçados de sempre.
O
povo parece estar todo enfiado nas suas tocas, botando um olho de cada
vez cá para fora para espreitar as pernas do mundo e se ele estiver de
saias, se mudou as cuecas... Se tudo parece sossegado, volta p'rá toca e
dorme.
As coisas
estão como alguma fruta. Lisas por fora e vai-se a ver, podre por
dentro. Desata tudo a cuspir e depois é o salve-se quem puder, uns a
desviarem-se das cuspidelas dos outros!"
Faz-se
silêncio. Uns gozam esgares superiores para afugentar a sua ignorância e
o medo, outros embrulham o amarelo dos seus sorrisos nos guardanapos do
balcão e baixam a cabeça em direção aos respetivos copos.
"-Olhem
que isto não é do anis! Sou velho e viúvo mas não sou louco nem
estúpido. Leio o livro do mundo há muitos anos e aprendo o que lá está!"
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Texto originalmente publicado aqui.
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